quando dou de rezar
não dobro os joelhos
nem fecho as mãos juntinhas como quem mata insetos
e ponho as mãos nos bolsos num burilar de contas invisíveis
quando dou de rezar
não me curvo
nem preciso de silêncio como os leitores nas bibliotecas
se rezo, permaneço ereto porque gosto do vento no meu rosto
e apuro os ouvidos porque quero ouvir os gritos das crianças, dos homens e das mulheres em suas lutas
quando dou de rezar
não fecho os olhos
nem sussurro palavras feito as vozes nos velórios
se rezo, abro bem os olhos porque quero guardar o mundo que não me guarda
e - bem alto - canto uma canção que minha mãe cantava enquanto estendia as roupas nos varais
quando dou de rezar
não olho para o céu
nem peço nada feito os pedintes sob as marquises
se rezo, não olho para o céu porque lá só o azul
e aproveito para devolver a Deus o que Ele me deu
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