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Apenas cansaço

meu pai não tinha
biblioteca
os livros, eu roubava do meu irmão mais velho ou
quando gostava, não os devolvia à biblioteca
a bibliotecária, em sua ira de nuvens,
batia a porta na minha cara
na minha família – até então - não tinha doutores
só homens espertos
aprendi, desde cedo, a língua dos estranhos
as palavras dos solitários,
das mães solteiras, abandonadas
adormeci - por diversas vezes - nos seios volumosos e
macios de um preta de voz de veludo.
foi ela que me ensinou o sentido da palavra homem,
não foram os dicionários, não, senhor
os dicionários não possuem seios volumosos, macios e pretos
escrevi, até fazer calos, com lápis de pontas carcomidas,
sob a luz de lamparinas bruxuleando a casa toda
bebi cerveja e cachaça das sobras dos copos dos homens tristes
e saí cambaleando feito os homens tristes
e sou hoje triste a minha maneira
só minha
por muito tempo, feito duas muletas,
carreguei calhamaços sob os sovacos de pelos incipientes
espinhas estourando dentro do nariz
minhas verdadeiras Guerras Mundiais
li Jack London de trás para frente
até hoje trago longos trechos de cor,
assim como as salve-rainhas e os padre-nossos
vez em quando, entro numa igreja e quando noto
estou falando, baixinho, trechos e mais trechos do Lobo do Mar,
do Caninos Brancos, do Apelo Selvagem, coisa assim
às vezes, misturo tudo, depois, digo amém
os joelhos estalam
a igreja também
- ou seriam os ossos dos santos? -
contudo
nenhuma recompensa,
Apenas cansaço
e por esses dias, umas arritmias

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