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poderes secretos

Sempre detestei tirar fotos para documentos. Até hoje gosto daquelas onde fui pego de surpresa. Mais ou menos como estar num mundo e olhando pra outro. O sorriso que só é doado quando não é pedido. O olhar que olha e que vê quando alguém não lhe pede que olhe e veja. Apenas é.
Precisam ver o meu olhar enviesado para aquele não-eu na foto. Feio como nunca fui tanto, pelo simples fato de que não se faz um ser humano em apenas um clique, mesmo que seja só cabeça e ombros. A natureza não dá saltos, muito menos cliques, A coisa demora. Deus leva uma eternidade para tirar uma 3x4 nossa.
No meu tempo – digo naqueles anos loucos e turvos quando tiramos fotos na mesma proporção que as espinham estouram na nossa cara imberbe – não podia sorrir na foto. Poder, podia. Sempre pôde. Era aquele fotógrafo emburrado que não gostava de sorrir. Vivia em seu cubículo de amargura cheirando a reveladores e fixadores químicos: uma coisa meio xixi no álcool.
- não ria que estraga a foto. Documento é coisa séria.
- hum?
Depois, eu ali, apertadinho no meu quadrado, uma vida presa entre o polegar e o indicador, eu, réu confesso, com um sorriso 3 x tantos, emprestado, tenso, feito um vaso de plantas prestes a cair da janela.
Sempre que eu ia tirar fotos, nunca queria ser como a maioria das pessoas que intencionava, a todo custo, naquele breve e frio tempo, imprimir no papel o melhor que elas podiam dar e ser. Não. O que eu ansiava mesmo era que saísse justamente aquilo que eu pretendia esconder a sete chaves. Queria, quando eu fosse pegar as fotos, ver outra pessoa impressa no papel, piscando pra mim, depois rindo ironicamente para o fotógrafo carrancudo. Mas eu queria mais, muito mais. Queria que não houvesse ninguém ali, apenas um quadrado com um fundo branco como quem escapara antes do flash. Eu me tornara invisível? Poderia, cheio de marra, perguntar-me.
Houve um dia que achei mesmo que eu tivesse conseguido esse feito. O fotógrafo naquelas de:
_não ria que estraga a foto. Documento é coisa séria.
E eu pensando:
Não vou sair, não vou sair, não vou sair
Então, a câmera pifou. E enquanto ele trazia a geringonça à vida, rodando uma coisinha que mais parecia um pequenino e prateado braço de vitrola, aproveitava pra emendar:
_espera ai, fica aí, não ria que estraga a foto. Documento é coisa séria. Olha pra cá, ajeita os ombros, moleque, levanta o queixo, infeliz...isso. Olha aqui...
E clique
E depois de uns dias
_vai pegar as fotos... é pro serviço militar - Era minha mãe no pé como sempre.
Por esses tempos, vi algumas dessas fotos. Um dia, se cansam do sossego de ser coisa esquecida, e mesmo contra nossa vontade, dão as caras. Geralmente, acontece quando procuramos algo e nos deparamos com outro e, então, perdemos o dia olhando as fotos como quem quer entender o que já entendemos. Nunca gostei de pentear o cabelo assim, para o lado, feito filhote lambido pela mãe. O pescoço rígido, esticado como se quisesse sair do tronco, e o velho sorriso de guerra que não me pertence e que dura o tempo de um clique de um fotógrafo antipático. A única vantagem – se é que posso chamar assim – é que, nessas fotos, estou sempre mais jovem como quem vai desnascendo no tempo. Tão jovem que, no primeiro momento, nunca sei se eu sou eu realmente ou um dos meus filhos, um sobrinho, um primo que não envelheceu, ou até o meu pai, quando criança. Vi também, não sem um susto bom, que entre as fotos havia uma em branco, sem ninguém – seria minha? - . É certo que logo percebi que ali o tempo agira sem pena nas leis da química, mas preferi acreditar que um dos meus poderes secretos, a força da minha mente, enfim, um dia, venceram o fotógrafo e a sua geringonça de imprimir momentos. É como disse Cecília Meireles: “a vida só é possível reinventada". Melhor assim.

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