Duas pernas apenas e tantas quedas. Essa pode ser uma boa medida de uma vida, não? Pensei nessa frase, assim como alguém que percebe que precisa pagar uma conta. E sobre quedas, não me refiro àquelas que aconteceram porque minhas pernas não sabiam ainda lidar com a minha recente e desengonçada existência. Perninhas feito dois carregadores levando o mesmo objeto para lugares opostos. Refiro-me às quedas nas quais não são os ossos, as juntas, a pele, entre outras coisas que estão em jogo, mas sim, o coração. E por coração, não trato exatamente, das querelas do amor. E que graça teria o mundo se não fossem essas querelas? E não é o amor impossível aquele que realmente se realiza? E não foi Hemingway que disse uma vez que se numa história duas pessoas se amam as coisas não podem terminar bem? Bom, sobre isso estamos conversados, não?
Sobre o coração falo da força, do valor que você coloca nas coisas. Explico: desde muito pequeno, quis ganhar um forte-apache, e isso nunca aconteceu. Até que um dia me dei um de presente. Mas é claro que não é a mesma coisa. Me senti como um adulto tentando vestir uma roupa de quando ainda era uma criança. Quer dizer, o forte-apache já não possuía o mesmo encanto da expectativa nem eu sabia mais brincar. Podia, claro, sentar-me no chão e arrastar cavalos, índios e caubóis enquanto arriscava algumas onomatopeias, mas isso não necessariamente, significa brincar. O mundo fabuloso é um clube privado e exigente. Neste, há códigos, sinais e até um idioma próprio. E para entrar nesse clube, você precisa apresentar o crachá. E eu não o tinha mais. Cresci.
Falei do forte-apache, um dos meus leões mais difíceis de domar, não para trazer à baila um passado de inquietações proustianas. Falava de quedas, lembra? E vejo isso como uma das mais dolorosas, mais do que a da rede que foi quando senti o concreto da realidade. O bum da existência. Esta, eu levei uma vez e ponto. Mas todas as outras, as novas, é o que penso, têm o sabor amargo da queda do forte-apache. Como a grande queda de Alice.
Vamos crescendo e as quedas vão ficando cada vez mais perigosas. Estas, agora não são como nos primeiros anos em que colocamos tudo aquilo que temos - como um jovem estudante, cheio de vida, que almeja entrar numa boa universidade e seguir uma vida brilhante – mas sim, colocamos aquilo que nos resta, feito alguém, em dificuldades financeiras, vendendo as joias da família.
Viver é se expor. O mais recluso dos homens está exposto. Exposto a si mesmo. E cada ser, como um colecionador involuntário, tem lá a sua coleção de quedas: pequenas, grandes, barulhentas, silenciosas, velhas, novas, muitas. Todas elas feito várias camadas de tinta, umas sobre as outras.
E no desespero de mais uma queda - mais uma? - por mais que saibamos que, enquanto houver vida, outras tantas virão, e ainda mais perigosas, uma voz, de algum lugar de você, como um sussurro vindo de uma concha do mar, diz: “vamos, levanta-te e anda”.
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