Definitivamente, não gosto de aviões. Nada contra as geringonças em si, são até bonitas, ostentosas. Refiro-me a não gostar de voar nelas. Lembro-me de ter voado sem medo uma única vez: a primeira. Mas até aí, eu estava mais preocupado com uma imensa espinha que apareceu dois dias antes da viagem e, era o que parecia, iria ficar em meu rosto imberbe até o meu último suspiro. E outra, eu lá sabia que essas coisas viajam a mais dez mil metros de altura e a milhares de quilômetros por hora. E por que deveria saber? Melhor não.
Mas não é o medo o principal motivo de eu querer ficar longe dos aviões. O que sinto não chega nem perto do que sentia o Gabriel Garcia Márquez que disse que, quando em voo, com toda sua força e fé, segura a poltrona para ajudar na sustentação da aeronave no espaço e que grita com as crianças que correm pelo corredor com medo de que elas abram um buraco no piso.
Há evidentemente, um medo, como a maioria das pessoas, mas o que sinto mesmo está mais para um enfado com os procedimentos que antecedem aos voos: chegar horas antes e depois não saber o que fazer com o tempo que sobra, as filas nos guichês, nas lanchonetes e restaurantes, os gestos autômatos dos funcionários, a antipatia sob o rouge e o batom, a truculência de terno bem cortado, crianças cruzando o caminho e maliciosamente felizes. É como um trailer mais extenso que o próprio filme. E um filme ruim, diga-se de passagem.
Depois, enfim, já com o cartão de embarque, continuamos a esperar. E há ainda as mudanças inopinadas: “o embarque do voo tal agora será no portão tal”. E todos se põem em alvoroço. As crianças esquecem seus brinquedos, os idosos, suas bengalas e muletas, outros, suas bagagens e sei lá mais. Uma correria dos infernos. Já no novo portão, entregamo-nos a nós mesmos e, numa falsa tranquilidade, continuamos a esperar.
Fico muito assustado com essas mudanças repentinas dos portões, porque carrego um trauma de um episódio que aconteceu comigo, no aeroporto, em Berna, na Suíça. Lá não costuma acontecer essas coisas, mas aconteceu. De última hora, mudaram o portão. Deus, quando estive em Berna todas as informações nas malditas placas eram em alemão e tudo que eu sabia desse idioma, pelo pouco tempo que morava na cidade, era danke, bitte e Verzeihung. Resultado, perdi o avião. E por isso, toda vez que há alguma alteração no meu voo já penso que vou ter de dormir num quarto frio de um hotel frio, sentindo-me mais sozinho que David Cooperfield em sua primeira fuga. Como apoio moral, apenas uma bíblia aberta no salmo 21 e que não vou ler porque sempre acho que está escrito em alemão.
Chega enfim, a hora do embarque. Crianças cruzam o caminho, pisam nos nossos pés. Querem sempre chegar primeiro sei lá onde. E lá vamos nós rumo à aeronave que já nos espera em sua indolência de aço. Então, procuramos pelo nosso assento já rezando para não encontrar alguém sentado nele devido a algum erro na compra das passagens. Ah, como as agências adoram essas duplicidades. Só pode. Porque comigo já aconteceram pelo menos duas vezes. E enquanto você procura o assento, olhando para um lado e para o outro, tentando enxergar, com seus óculos vencidos e embaçados os pequeninos números, há sempre alguém bem no meio do corredor e que não parece nem um pouco preocupado com a fila que já se formou. Tira e põe malas e mais malas no bagageiro já lotado. Parece tentando colocar um elefante numa gaiola. Resolvido isso, ufa! Sento-me no meu bendito assento e espero.
Minutos após a decolagem, servem uma coisa e outra que nunca como nem bebo. As coisas ruins, é o que parecem, nas alturas, ficam ainda piores. Os refrigerantes têm gosto de vitamina C e a comida, de plástico flambado. Depois de colocado na boca e algumas poucas mastigadas, não há como colocar para fora, menos ainda para dentro.
Mas, vou dizer, o que mais me desgosta nos voos é a impossibilidade da despedida. O que acontece no hall não conta. Nem chamo isso de despedida. Dá-se um abraço e um beijo ligeiros como se estivéssemos em fuga. Desatentos, porque os ouvidos estão sempre colados na voz metálica que vem dos alto-falantes: “voo tal, portão tal, embarque imediato“, não percebemos nada a nossa volta. Só depois, já dentro do avião, sentimos um perfume em nosso pescoço, notamos um fio de cabelo na nossa roupa, um rosto, feito a sombra de uma nuvem sobre a superfície de um lago, surge em nossa mente, e então, angustiado, perguntamo-nos: eu a beijei? Eu o abracei? Apertei mesmo a sua mão, disse o que tinha de dizer? Não lembramos. E em meio a essa tentativa de pactos e justificativas com o tempo, com a memória, as turbinas soltam as suas primeiras e poderosas arengas, como um lutador, antes do início da luta, no canto do ringue, ja trincando os dentes e dando ligeiros socos no ar. O que nos resta então, é ficar sentados e esperar que depois de tudo, as coisas corram bem até o nosso destino.
O que quero dizer é que, nos aviões, diferentemente, dos trens, dos ônibus, dos carros, não podemos acenar para os que ficam, nem tocar, de leve, os dedos de alguém que gostamos enquanto nos separamos. Não temos tempo nem espaço para escrever um bilhete de última hora e jogar pela janela, para o outro ali. Muito menos podemos esperar um daqueles gritos inopinados: “diz pra tia Lica que mês que vem chego por lá“. Não, não é possível, como assim o é nas rodoviariazinhas das pequenas cidades onde nasci e me criei. Onde viajei muito de trem, de ônibus, de carro e em alguns casos, até de carroça. Ah, gosto das despedidas, com direito a choro e abraços eternos. Dentro do avião, só nos resta olharmos as pessoas assim como, dos aquários, nos olham os peixes. E o que nos resta, da altura do abandono de nós mesmos, é, também, assim como os peixes, ficar beijando o vidro, no nosso caso, a janela do avião, como o único meio possível de contato com o mundo dos nossos do lado de fora.
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