Chegava, jogava sua mochila velha sobre a mesa, e ia contemplar, na janela, algo que só ele via. Depois disso, como se saísse de um transe, riscava uma palavra na lousa e começava a se questionar – sim, a ele e não a nós. Eram questões que aparentemente, nada tinham a ver com a palavra escrita a nossa frente que mais parecia um desenho de um graveto.
Falava para si mesmo, como, sozinho, devia falar em seu quarto, antes de dormir. Até que um de nós, não mais se segurando de curiosidade – esta é que nem coceira, se demoramos, coça ainda mais – entrávamos no solilóquio dele. Depois entrava outro, e mais outro, e outro. Logo toda a sala estava envolvida numa conversa sem pé nem cabeça, mas, no final, a sensação que nos ficava era a de que tínhamos todo o mundo dentro da sala.
Esse professor, em tempos de prova, não perdia seu tempo nos vigiando nem circulando as carteiras, menos ainda nos mirava do umbral da porta feito a morte nos espiando dos muros, em Córdova, como disse uma vez um poeta. Não. Apenas colocava as provas em cima da mesa e pedia que cada um pegasse a sua e, sem cerimônias, começasse a responder. Depois sentava-se, punha os pés sobre a sua mesa, então, abria um velho livro policial – até hoje sou fã de Simenon – e nos esquecia por completo.
Começávamos devagar, passando e recebendo informações feito prisioneiros trocando sinais para uma fuga, então, pegávamos gosto, e logo a sala parecia um dia agitado na bolsa de valores. Ele, vez enquanto, passivo, passava um pé sobre o outro e seguia com sua leitura.
Um dia, questionado sobre deixar os alunos colarem no dia da prova, ele em seu jeito sem jeito, com um sorriso doído, as mãos desengonçadas procurando os bolsos feito bichinhos indefesos fugindo do caçador, apenas dizia, com sua voz em pedaços, que se os alunos perguntavam entre eles as respostas da prova, e se a maioria tirara boas notas, é porque alguns deles tinham estudado e aprendido, e dessa forma, compartilharam o conhecimento com os outros. O importante, num primeiro momento, ele dizia, não era o conhecimento, mas sim, que os alunos não o associassem a um momento sofrido. Conhecimento vem do amor. É como no beijo. Quer dizer, duas pessoas, em êxtase, trocam saliva, impulsionados pelo desejo provocado pelo beijo.
A diretora, ao ouvir isso, com as mãos para trás, em sua impaciência de corvo preso num frasco de perfume, ficava subindo e descendo nos sapatos, como se na verdade, simulasse esmagar o professor com seus pés de gangorra. Ora, comparar conhecimento com um beijo. Mas que indecente - ela dizia.
Ouvíamos os tímidos argumentos e ficávamos flutuando. – De onde ele tirava isso? Perguntávamo-nos - Éramos como Moisés diante da sarça ardente que tanto falava a minha avó. Um dia, vi um aluno chegar com o Geoges Simenon sob o sovaco. Uma menina começara a ler A Ilha do Tesouro, um outro, As viagens de Gulliver. Comprei minha primeira gramática e saí da livraria como se tivesse levado o meu primeiro beijo. A Língua Portuguesa entrava na minha vida, silenciosa, assim, como a lua, na madrugada, vazava pelas venezianas e iluminava o meu quarto. Quando pequeno achava que a luz da lua era a lanterna de algum astronauta esquecido por lá.
Agora, nas provas, pegávamos as folhas, e cada um com o seu melhor, na sua carteira e no seu silêncio, respondia as questões. Depois que ele entregava todas as provas e reparava o sorriso de satisfação em todos nós, devido as notas, sentava-se na mesa dele e falava das coisas do mundo. Falou de um deserto onde o vento assobiava como mil almas em procissão – visitei esse deserto logo que pude fazer a minha primeira viagem sozinho. Falou do cheiro típico dos trens, de um menino que desistira do boxe para ser dançarino, dos sons das botas dos vaqueiros quando caminhavam em seus passos firmes, do cheiro dos animais, da casa sem portas, onde muitos entravam, dormiam, e no dia seguinte, seguiam viagem. Antes disso, deixavam algumas moedas sobre uma mesa velha e que logo depois, um velho desdentado, cheirando a fumo, vinha recolhê-las. Falou de muitas coisas. Mundos que pareciam inventados por ele, ali, na hora. Enquanto falava, vez ou outra, olhava pela janela como a contemplar algo que só ele via.
Mesmo com todas as nossas notas boas, com o ânimo de todos, alguma coisa, para a escola, parecia errada. Ele, num jeito indefeso de órfão, recuando alguns passos, tentando esconder-se em seus cabelos desgrenhados, continuava a responder aos questionamentos da diretora, geralmente, sobre o jeito desapegado de ministrar as aulas, da folga que ele, sem necessidade e permissão, dava aos alunos.
Até que um dia, a diretora entrou na sala, pediu que abríssemos determinado livro, e na página tal, no parágrafo tal lêssemos tal texto e logo em seguida, fizéssemos um resumo. Vez em quando olhávamos para a porta, mas já sabíamos o que havia acontecido. E não era sempre assim? um professor saía, e até achar outro para colocar no lugar, seria a diretora, que, na sua postura formal, com sua alma de gelo, e seus cabelos que nem um vento de mil almas em procissão os assanharia, nos daria aula.
Depois que me formei, saí pelo mundo apenas com uma mochila velha, uma vontade de conhecer o mundo além dos meus sapatos, e um desejo ainda maior de encontrá-lo por aí. Quem sabe, em um daqueles bares distantes, empoeirados, com placas de Coca-Cola desbotadas, e, lá dentro, um homem enrugado, carrancudo enxugando copos, enquanto o vento assobia nas frestas das portas e janelas. Sim, um daqueles lugares distantes e impossíveis dos quais ele tanto falava. Então, tomássemos umas cervejas enquanto conversávamos de homem pra homem e depois, num silêncio que nasce da satisfação de que tudo foi dito e bem dito, contemplássemos, na janela, algo que só nós dois conseguíamos perceber.
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