A tarde não é a mesma, claro, porque cada tarde é uma tarde, mas, de alguma forma é a mesma porque traz as mesmas cores, assim, como uma nova bandeira de uma determinada nação é a mesma e é outra. Digo que o que pode ser diferente é o peso, pois, ele, um amigo, sim, um amigo, alguém que preenche uma história como os pontinhos de ligar e que forma imagens. Alguém com quem compartilhamos algumas canções, confidências, viagens e desesperos, partiu. Uso esse verbo "partiu" porque acredito que saimos dessa para uma melhor, quer dizer, diferente. E quando alguém se vai como um sol que não pousa, como uma lua que não é nova. E tudo isso acontece como um pacote que cai, uma sombra sobre o dia, um calendário vencido no meio do peito, uma aula de violão suspensa, uma conversa interrompida, um chope intocado sobre a mesa.
A tarde não é a mesma, claro, porque cada dor é uma dor, mas de alguma forma é a mesma porque traz as mesmas agonias, assim, como o choro é outro mas as lágrimas são as lágrimas. Digo que poderia ser diferente porque ele deveria ainda estar aqui com seu olhar melancólico, mesmo assim, com fé no futuro. Ele, um amigo, algo que está em nós como os nossos sonhos. Alguém com quem ficamos nus de corpo e alma, algúem com quem mijamos e oramos juntos. E quando alguém se vai, leva-nos uma asa, às vezes duas - que é o caso aqui - e por isso nem posso arriscar um voo em seu resgate. Porque tudo acontece como um tapa, um chute na bunda, um grito, e depois, um vazio com os sussurros das roupas no varal, e a tarde sem tarde, e o vazio que nada preenche. Vou virar o ano já no vermelho. Tenho de correr, correr, como um hamster no afã de chegar a lugar nenhum. Vou começar o ano sem começar, vou terminar o ano sem terminar. Porque hoje nada é e nunca será mais nada.
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