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Noturno em Veneza

Eu já não tinha mais certeza do meu verdadeiro nome. Poderia checar os meus documentos em meus bolsos que ainda assim, duvidaria. E aqueles documentos não poderiam ser de outra pessoa? O fato é que toda essa incerteza – coisa que foi nascendo aos poucos feito uma doença silenciosa - era porque eu me sentia como um habitante de um entre-mundos: já não me lembrava de muitas coisas do Brasil e ainda assim, não me sentia na Europa.
Sim, claro, eu estava ali, no vaporetto. A minha frente, quer dizer, a nossa - havia mais gente naquele barco engraçado - o horizonte mostrava suas pinceladas furiosas. O sol, feito um barquinho de papel, ia como que soprado por algum deus travesso, ali, de cócoras, oculto por uma grande pincelada laranja. Sim, eu fazia parte desse melancólico cenário, mas não estava mesmo certo do meu destino. O que sabia era que ia em silêncio e notava o timoneiro numa pressa particular. Não aquela pressa de quem quer mostrar que sabe mesmo fazer a coisa, mas sim, como a de alguém que anseia estar em outro lugar, distante da maçante rotina de fazer o que já não mais apetece.
Então, a noite veio feito um padre fechando as pálpebras de alguém que acabara de morrer. As luzes ao longe eram como brasas flutuando na água. O vento assobiava feito um larápio fuçando as coisas alheias. Havia o frio e o cheiro do mar em tudo. O frio e o cheiro das profundezas úmidas e escuras. Agora só se ouvia o motor do barco. Todos pareciam imersos em si mesmos. Como se tivessem esquecido as suas Línguas.
Lembro-me que estava cansado, muito cansado. Porque é assim que ficamos quando viajamos muito. Quando pulamos de país em país, de cidade em cidade, como se fugíssemos de nós mesmos. Mesmo sabendo que isso é impossível. Largamo-nos por um tempo num marché aux puces, mas é certo, logo nos deparamos com nós mesmos em algum café. Ao entrarmos, oh Deus! lá estamos nós, a nos espreitar, com o nosso pedido já feito e a nossa cadeira a nos esperar.
Sim, já disse, estava cansado. Quando visitamos lugares longe, muito longe - e isso por um tempo demasiado longo - deixamos não só camisas, sapatos e meias, mas sim, parte do que somos. Trazemos pessoas conosco e deixamos um pouco de nós com elas. Levamos suas histórias e deixamos as nossas. Levamos cidades inteiras. E isso dói, e depois adormece, adormecemos e ficamos assim. Então, as lágrimas caem e nem damos por elas, assim como nem damos por nós.
O vaporetto foi-se e eu fiquei em meu passo aquático. Tudo flutua, dentro e fora de nós. Nada é sólido. Veneza é um verdadeiro barco fincado, mas nunca temos a certeza de estarmos no mesmo lugar de antes.
O mar, engolidor de tudo que é, engoliu o som do barquinho e de volta, cuspiu silêncio e solidão: dois dragões imensos no meio daquela noite imensa e tão só. Para me fazer companhia, pensei em dizer o meu nome, mas declinei. Tive mesmo receio de o ter esquecido de vez.

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