Para entrar na vida e para sair dela de uma vez, precisamos de um suporte. Não lembramos dos nomes daqueles que, ligeiros e enérgicos, nos puxaram para dentro da vida, quem bateu de leve nas nossas costas para que soltássemos o nosso primeiro reclame da existência. Quem cortou o nosso cordão umbilical? Não nos lembramos. Mas com certeza, pequeninos e indefesos como éramos, não fomos nós a cuidar disso.
Assim também não nos lembramos – e como poderíamos – de outros tantos, que em gestos solenes, e até algumas lágrimas, nos levaram para fora da vida, quem teceu orações para que a nossa jornada fosse mais leve. Quem remendou o nosso cordão umbilical? Não nos lembramos. Mas com certeza, silentes e inertes como estávamos, não fomos nós a levantar um fio de cabelo acerca disso.
Em meio a tudo isso, ah, tanta gente e tanta história. Lembro-me que eu só conseguia dormir depois que minha mãe viesse me cobrir. Geralmente, eu não me cobria por preguiça mesmo, mas na maioria das vezes, eu deixava o cobertor ali, sob meus pés, para que ela me cobrisse. Era como se com esse delicado gesto - seguido de um beijo - , ela separasse o reino imaginário do real. Como se me dissesse: “vá que estarei aqui na volta”.
Meu irmão fez minha primeira pipa e me ensinou a me defender, quer dizer, me falou: “se for do seu tamanho, encare, se for maior, corra”. Da maioria estou correndo até hoje; do mesmo tamanho ou não. Ele também me disse que os livros são espelhos. E talvez, por isso, até hoje, sempre me confundo onde devo me barbear, pentear-me, se num espelho ou num livro.
Minhas irmãs me ensinaram a cortar as unhas, a lavar as orelhas. Esse foi um aprendizado difícil. Me ensinaram também a lavar a louça e a varrer a casa, e principalmente, a pensar que, fazendo isso, eu iria além da palavra homem.
Tanta gente e tanta história, pessoas, de um jeito ou de outro, abrindo o nosso caminho: um amigo me ensinou que eu poderia ir além de mim, e que para isso, só precisava de um passo a mais. Só mais um passo. E mesmo com um medo danado de ir além do meu tão costumeiro condado – feito Sam, o hobbit, do Tolkien – dei esse passo e o mundo abriu-se feito uma gigantesca e silenciosa cortina. Haverá uma possibilidade de volta, mas os caminhos não serão mais os mesmos, o tempo, as pessoas.
Algumas companheiras me deram o mundo labiríntico delas e neles nunca me perdi, porque elas sabiam muito bem onde estava o Minotauro e, mais ainda, qual direção tomar. Foram verdadeiras Ariadnes. Em suas mãos, havia sempre, sempre, o novelo de lã para me trazer de volta quando eu me debatesse no meu próprio labirinto.
Assim como não chegamos e nem partimos sozinhos, menos ainda vivemos sozinhos. Nesse tão precioso meio tempo, que segundo Sêneca, geralmente, desperdiçamos com futilidades, tenho de, com o melhor de mim, remar num barco onde muitos outros remam com o melhor deles. É assim que o barco segue firme.
Ah, e eu que geralmente, falo do meu pai, já ia me esquecendo dele aqui. O velho danado – sempre vivo em meu coração como a esperança do mundo – dizia: “só erga seus braços na direção de alguém se for para ajudá-lo a sair do buraco onde o infeliz se meteu”. Essa máxima está escrita, aqui, bem do meu ladinho, na minha mesa, porque, por isso, e por aquilo, damos de nos perder das coisas realmente, importantes da vida. E eu não quero isso.
Comentários
Postar um comentário