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O que acontece?

Atualmente, vivemos tomados pelos compromissos que, quando paramos, achamos que há alguma coisa errada. Trabalhamos o ano inteiro, e não conseguimos aproveitar um mês, quinze dias, uma semana que seja.

Sempre que penso nisso, lembro-me do famoso filme Tempos Modernos, com o Chaplin: um funcionário, trabalhando intensamente numa linha de produção, de tanto apertar parafusos – e é só isso que ele faz – num dado momento, sai apertando tudo em volta. Não que ele ache que tudo precisa ser apertado, mas porque ele não consegue parar devido ao condicionamento que a máquina, cada vez mais rápida, lhe impôs. E nisso, nesse desassogego, é engolido pela famigerada máquina. Permanece vivo, mas continua, com suas ferramentas endiabradas, tentando ajustar tudo em volta. 

E não é a vida a nossa linha de produção? E não somos, de um jeito ou de outro, Chaplins com ferramentas em punho, querendo a todo custo, ajustar as coisas? Sonhar é grátis, mas concretizar os sonhos gera boletos, e boletos são insensíveis e pontuais. Um dia nos vemos em meio a essa avalanche e não temos a menor ideia de como entramos nela. E, pior, não podemos mais parar porque tem sempre uma nova demanda que necessita de nós.

Então chega o nosso momento - não como aquele do Chaplin que nem bem conseguiu terminar de fumar o seu cigarrinho porque já teve de voltar ao trabalho -, o descanso tão esperado: as nossas férias. Aquele momento que só precisamos olhar um pouco que seja para nós mesmos. Sim, por incrível que pareça, podemos depor as nossas ferramentas tresloucadas, tirar a roupa suada e suja, sentar um pouco e olhar para o horizonte, coçar os pés, andar pela casa, o que for, mas, sabe-se lá por que cargas d’água, não conseguimos.

Estamos com o tempo livre, pouco que seja, mas a linha de produção está na nossa mente como um eco de um grande grito de terror. Durante muitos dias, saltamos da cama, logo cedinho, porque achamos que perdemos a hora, e só paramos de rodar pela casa - com a toalha no ombro - quando alguém, enfim, de forma carinhosamente irônica, nos diz que estamos em férias.

Mas nos esforçamos: quem sabe aquela viagem tão sonhada, visitar um amigo distante, um parente que há tempos não o vemos. Também podemos aproveitar para colocar um pouco a vida doméstica em dia: consertar aquela porta do armário que há muito pede nossa atenção, jogar alguns papéis fora, assim, como algumas coisas inúteis que, sabemos lá por que, as mantemos em algum lugar escondido da casa: uma esteira que quebrou, uma bicicleta, que por falta de tempo, esquecimento, foi deixada ali, na garagem, em sua solidão, e por isso, desconhece as ruas, desaprendeu a andar ou não quer mais.

De uma imensa lista, da qual jamais lembraríamos se não estivéssemos em férias, com muito esforço, conseguimos quitar alguns itens. Isso talvez, mais para abafar um sentimento de culpa - por estarmos em casa e não apertando os velhos parafusos de guerra - do que vontade mesmo de fazer a coisa. E assim, a vida vai, e o tempo segue junto, insensível e pontual feito os boletos.

Quando, enfim, vai chegando ao término das férias surge aquela sensação dúbia que - é o que dizem -  sentiram os soldados quando tiveram de voltar para casa ao fim das Grandes Guerras. Como lidar com dois mundos completamente, diferentes? Mas, mesmo assim, levantamo-nos cedo, aprontamo-nos e seguimos firmes para a nossa linha de produção-vida. Ela urge. Quem sabe, nas próximas férias as coisas sejam melhores. Sim, nas próximas, me organizo mais, me dedico e relaxo mais. Pensamos. Mas sabemos que promessas ao futuro pertencem. O certo mesmo é que continuaremos a apertar os parafusos de sempre numa máquina cada vez mais veloz e faminta. Só o que nos resta é ficar atentos para não ser engolidos pela máquina e, caso isso aconteça - o que é mais provável - rezar para ter a mesma sorte do Chaplin: sair dela ileso. Ileso? 

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