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Revistas, faxinas e mistérios

Coleciono algumas revistas. Tenho várias Superinteressantes e ainda as minhas sofridas Seleções do Reader's Digest que comecei a juntá-las quando ainda era um rapazinho. Elas já sobreviveram a três divórcios e sei lá a quantas mudanças. E penso que ainda aguentam muito mais. Gosto de ter essas revistas comigo, mas o que gosto mesmo é de dar uma olhada nelas, vez ou outra, quando decido fazer uma faxina geral nas minhas coisas num lento e prazeroso "isso-fica-aquilo-sai".
Quando pego uma dessas revistas, o universo em sua expansão misteriosa e cada vez mais veloz pode seguir sem mim. Como se eu tivesse achado estela, o outro pedaço maior e perdido da pedra de Roseta, sento-me e vou folheando a revista numa placidez de padre bem alimentado: no espírito e na carne.
Me perdi num artigo sobre a origem do aplauso: o ato de bater constantemente a palma de uma mão na outra como forma de demonstrar – entre muitas outras coisas - a nossa satisfação com algo que nos é apresentado. Sim, esses movimentos que, atualmente, fazemos nos teatros, nos concertos, nos festivais de cinemas, ou nas festas de aniversário dos nossos amigos e familiares.
Segundo a matéria, bater palmas começou como um gesto religioso e existe há mais de 3000 anos. O som provocado pelo constante atrito das palmas das mãos deveria despertar os sonolentos deuses, os bons, evidentemente. Este gesto tão comum nos nossos dias, segundo uma das revistas, é atribuído ao Deus Crotos, filho do deus Pã e de Eufeme. Em grego, a palavra Kroto significa o barulho das palmas das mãos. O autor da matéria diz ainda que o deus grego começou com essa brincadeira para demonstrar sua gratidão às musas.
Em Roma, aplaudiam para saudar reis, imperadores, políticos, atores. Para quem já foi a um programa de auditório pode até achar desonesto quando num dado momento, alguém apresenta uma placa com a palavra “aplausos” e logo todos começam a aplaudir. Na maioria das vezes sem nem saber o que estão aplaudindo. Ora, pois saibam bem que isso não é uma invenção dos nossos tempos, porque alguns imperadores romanos viajavam com grupos de “batedores de palma profissionais” para os elogiarem e aplaudirem em aparições públicas. Só para citar uma dessas antigas celebridades que se preocupavam com a repercussão de suas aparições públicas, o imperador Nero – sim, sempre ele - carregava uma claque com mais de 5 000 soldados e cavaleiros.
Mas o que mais me encantou nas matérias foi um texto que trouxe à baila uma das falas de Próspero, o herói de A Tempestade, de Shakespeare.
Acabaram-se os encantos que eu tinha
E a força que me resta é apenas minha
Que é muito débil, aliás. A verdade, eis,
É que me manter aqui preso decidireis
Ou me enviar a Nápoles. A vós peço,
Tendo obtido o meu ducado de regresso
E perdoado ao embusteiro, não restar
Por feitiço vosso nesta ilha longe do lar,
Mas libertai-me de meus grilhões
Com o auxílio de vossas boas mãos.
Calma, não precisa ler esse poema duas, três vezes para tentar arrancar algum sentido. O que nos interessa aqui são apenas estes dois versos
Mas libertai-me de meus grilhões
Com o auxílio de vossas boas mãos
O que Próspero pede nesses versos é que todos aqueles que estão a assistir à peça, na qual ele é personagem, batam palmas. Mas isso não como mera vaidade, não. Ora, estamos falando de Shakespeare. Não seria tão simples assim, certo? Na verdade, Próspero pede que o aplaudam para que ele e todos se libertem de vez. Caso contrário, estariam para sempre presos na ilusão teatral. O herói falava do perigo de se ficar confinado nessa ilha enfeitiçada que é a grande ficção. E à época, acreditava-se que a única forma de quebrar esse feitiço, esse encanto seria com o barulho. Quebrado o feitiço, a magia funcionaria, e assim, o drama teria efeitos reais.
Já mais para o final da matéria, num contrassenso, já quando eu estava ciente de que o bater de palmas era mesmo para demostrarmos a nossa satisfação com algo, o autor da matéria fala de uma tribo que quando seus nativos queriam mostrar essa satisfação, davam a língua, sim: uma, duas, três, inúmeras vezes. E faziam isso numa alegria infantil e contagiante feito criança que acabara de descobrir uma nova forma de brincar. Agora, bater palmas, não. De jeito algum. Porque isso atraía os espíritos malignos. Se alguém batesse palmas era um verdadeiro pernas para que te quero.
Fechei as revistas pensando no conceito de cultura como propriedade. Muitas nações ainda a veem assim. E por veem dessa forma, lutam com unhas e dentes para mantê-la exatamente como é, assim, correndo o risco de enfraquecê-la por completo até a sua extinção. Mas também pensei num conceito mais amplo, flexivo, circulante: algo que criamos e transmitimos para que outros possam usar da maneira que bem entendem. E assim, numa interação cultural, consigam resgatar fragmentos do passado e criar possibilidades de novos e novos sentidos.
Porém, como o dia já ia longe e a minha faxina geral nem bem tinha começado, deixei as revistas de lado, e fui usar as minhas mãos de outra forma. Não para aplaudir nada nem ninguém, mas sim, para lidar com a vassoura e o rodo.

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