O vício não guarda o carro na garagem, não dobra as roupas no armário.
O vício não dar as mãos, não caminha no parque, nao leva o cachorro pra passear. ,
oh, vi com esses olhos que gostaria que não fossem meus,
olhos que eu queria mesmo que a terra os tivesse comido como o vício come mais que a terra come os olhos.
oh como vi um tio acendendo um cigarro no outro como se tivesse medo do escuro ou como se tivesse entrado num ad infinitum de si mesmo num desespero de incendiário
o vício quer as mãos, os lábios,
o corpo, a alma
o vício quer
o vício não chuta a bola para o gol, não guarda os sapatos juntinhos sob a cama. O vício não cede o banco aos mais velhos, não marca a página antes de fechar o livro, não pensa no futuro.
oh, senti com esses sentidos que eu gostaria que não fossem meus, sentidos que eu queria mesmo que o vento os tivesse levado como o vício leva mais do que eu os posso levar.
ô como senti um amigo apagando a vida como se apaga um fósforo como se tivesse medo da vida num afã de deus ao avesso
o vício quer os pés, os dedos,
a mente, a vida
o vício quer
o vício não divide o lanche, não compartilha segredos.
O vício não lava a louça da noite, náo guarda a sobra do jantar na geladeira.
Oh, com esses ouvidos que eu gostaria que outros é que ouvissem, ouvidos que eu queria mesmo que nada ouvissem como o vento nada pode com o seu murmúrio.
ô como ouvi um irmão morrendo como se morre uma vida como se tivesse uma vida de medos num desejo de viver
o vicio quer os dentes, os lábios,
a casa, os seus
o vício quer
o vício não
o vício é
rasteja como um animal
voa como um avião
fala doce como o anjo caído de Milton
mas é humano,
demasiadamente,
humano
feito um beijo de mãe
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