Pular para o conteúdo principal

o vício

O vício não guarda o carro na garagem, não dobra as roupas no armário.
O vício não dar as mãos, não caminha no parque, nao leva o cachorro pra passear. ,
oh, vi com esses olhos que gostaria que não fossem meus,
olhos que eu queria mesmo que a terra os tivesse comido como o vício come mais que a terra come os olhos.
oh como vi um tio acendendo um cigarro no outro como se tivesse medo do escuro ou como se tivesse entrado num ad infinitum de si mesmo num desespero de incendiário
o vício quer as mãos, os lábios,
o corpo, a alma
o vício quer
o vício não chuta a bola para o gol, não guarda os sapatos juntinhos sob a cama. O vício não cede o banco aos mais velhos, não marca a página antes de fechar o livro, não pensa no futuro.
oh, senti com esses sentidos que eu gostaria que não fossem meus, sentidos que eu queria mesmo que o vento os tivesse levado como o vício leva mais do que eu os posso levar.
ô como senti um amigo apagando a vida como se apaga um fósforo como se tivesse medo da vida num afã de deus ao avesso
o vício quer os pés, os dedos,
a mente, a vida
o vício quer
o vício não divide o lanche, não compartilha segredos.
O vício não lava a louça da noite, náo guarda a sobra do jantar na geladeira.
Oh, com esses ouvidos que eu gostaria que outros é que ouvissem, ouvidos que eu queria mesmo que nada ouvissem como o vento nada pode com o seu murmúrio.
ô como ouvi um irmão morrendo como se morre uma vida como se tivesse uma vida de medos num desejo de viver
o vicio quer os dentes, os lábios,
a casa, os seus
o vício quer
o vício não
o vício é
rasteja como um animal
voa como um avião
fala doce como o anjo caído de Milton
mas é humano,
demasiadamente,
humano
feito um beijo de mãe

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

obrigado, António Lobo Antunes!

Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...

a velha casa II

O jardim onde, nas brincadeiras, eu me escondia detrás das plantas espinhentas. Nas minhas primeiras incursões etílicas da juventude, eu tinha de pular o muro para que o portão, com seu incurável canto em falsete, não me denunciasse e meu pai se levantasse em seu arrastado de sono e fúria. A rua silenciosa, o apito do vigia, o Caravelo, mais lento que o andador da minha vó, prestes a cair sobre nós, ali, sob cobertores cheirando a amaciante e ferro de passar. Depois de rezar, em vez de dizer amém, eu dizia: “não amanheça, não amanheça”. Os dois lados escuros da casa – as lâmpadas sempre queimavam - que iam dar no quintal. Lá, a goiabeira onde chorei e sonhei e vi, dias sem fim, a menina sair do banho. O tilintar de pratos e copos dos vizinhos e a sensação de que dentro da noite eu estava protegido do mundo. Sobre a geladeira, o sarcástico pinguim que sabia mais de nós do que nós mesmos. Ali, em cima da velha cônsul asmática, ria a rodo dos nossos desencontros. A minha irmã sonâmbul...

a alça fria do peso da sua ausência

Quando meu irmão faleceu, não fui ao enterro. Adianto que não estou a justificar nada – e isso se justifica? -, mas é que meu pai havia morrido alguns meses antes e não vi mesmo força nenhuma para outra empreitada do nível ou pior. O que dói na morte não é somente a perda. Sabemos que, mais cedo ou mais tarde, morremos. É um acordo tácito, ou seja, antes de nascermos, não nos é apresentado um contrato no qual está escrito: “você vai nascer, passar um tempo – sabemos lá quanto – depois você morre. Assine aqui embaixo”. No curso da nossa vida, acabamos aceitando a ideia – aceitamos? – como um enfermo, uma hora, aceita a sua moléstia. O que machuca mesmo, e é aqui que a chapa esquenta, é a forma como a indesejada das gentes, como Bandeira gostava de denominá-la, tira-nos pessoas queridas. Melhor dizer nos arranca, sim? Porque é isso que ela faz. Lembro-me do meu pai, homem de voz de martelo de Thor com a qual até a casa se assustava. Mas era doce que nem os picolés de castanha da minha ...