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um dia

há tempos não escrevo, como se há tempos não andasse, não falasse, não vivesse. Nesse mar profundo que escapamos a braçadas, estou afundando. Há tempos não quero fuçar gavetas, nem visitar casas, lembrar nomes, nada.
Tenho lido muita coisa que nada diz das coisas. Há tantas coisas sem nada dentro e por isso me pergunto por que mais coisas.
Sem escrever, sem escrever.
nenhum novo amor veio me bater à porta numa noite fria, nem um grande amigo voltou depois de mais uma guerra perdida. Uma carta, sequer, da minha mãe, que estava nalguma mala velha há muito perdida nos porões das nossas vidas.
Não escrevo, não escrevo. Não invento, não invento. Poderia, mas não. Apenas conto enviesado aquilo que vivi na pele. Conto aquilo que me trai a memoria. Conto no ritmo do balanço velho da velha mangueira no velho quintal onde minha solidão era mais presente que as equações que nunca fechavam, na escola
Oh, os meus pombos, eu pedia sempre: vão embora, vão embora, mas eles voltavam como um exército vencido. E eu queria ir embora, que tudo fosse embora: vão embora.
Estou sem escrever como um pai que não trabalha, como um pássaro que não alimenta os seus filhotes, como um índio que chora a sua aldeia devastada, como uma noiva a arrastar o seu vestido numa rua deserta. Não escrevo e choro. Não porque quero escrever, não, mas porque não sei fazer outra coisa, assim como o padeiro só sabe fazer o pão.
Não escrevo, deus, não escrevo. E me falta algo como se me faltasse o coração. O vento há muito não entra pela janela, o cigarro não me queima o peito, e as palavras não me vêm assim como minha filha não vem da escola dado que não há escola e não há minha filha, não mais, não mais.
não escrevo, não escrevo e nem tento porque tentar assim é como plantar em terra estéril, é como desperdiçar sementes, caçar fora de temporada, é como esperar um trem numa estação há muito demolida.
então, faço silêncio, junto as mãos, e como numa oração, descanso a pena e vou ser aquilo que não me cabe, vou viver a vida que não me vive, ser o que não sou. Como um homem mascarado tentando enganar a si mesmo, vou, vou. Um dia, quem sabe, quem sabe.

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