Recebi o livro de um amigo e disse o que tinha de dizer. Num pediu? Não, não tem essa coisa de bola na quarta, cerveja na sexta, padrinho de batismo, casamento, o caraca. Literatura é uma coisa, amizade é outra. Disse que disse. Falei que escrever não é imprimir diatribes, baboseiras, delirios. Isso qualquer um faz. Nao, escrever não é isso. Como diz Drummond em um de seus poemas: "não, ainda não é isso". Descubra o que é escrever, vá.
Falei que o condimento estragou o feijão. Folha de louro demais, entende? Gelo no vinho. Orra! Mais vaidade que verdade. Verdade nenhuma, vaidade demais, uma fogueira imensa. Falei mesmo. Falei, falo, e falarei, meu caro. Já num disse que não recebo livros de amigos? ainda mais desse tipo. Não, num tem essa coisa de pancadinha no ombro, papeado na calçada, churrasco, nada disso. Literatura é coisa séria. Por aí tá cheio de nepotismo que eu abomino. Orelhas melífluas, prefácios suspeitos, quarta capa pingando loas & boas, nada com nada. Já perdi amigos, mas ganhei inimigos, estamos quites. Falei e falei. Já disse.
Quem quer saber da tua vidinha, rapaz? Invente uma vida para tua vidinha e aí quem sabe, né? Outra, leia, leia o que foi escrito, leia leia pra não correr o risco de escrever uma história com um magrelo num cavalo zoado na companhia de um gorducho engraçado. Sim. E sabe essa parte que você disse que chorou? Eu ri, amigo, eu ri, tô rindo até agora, sem parar. É ruim de dar dor no siso. Já ouviu falar numa coisinha chamada verossimilhança? não, né? Falei, falei mesmo e falo. Amigo, toque aqui, vá, aperte a minha mão, vá, mas por favor, não escreva, não. Nada disso. Literatura não é brinquedo. É como a velhice, não é para os covardes. Toque aqui, vá, chegue, dê um abraço, mas, sim... fique longe da escrita, por favor, bem longe. E, antes que me esqueça, jogamos na quarta?
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