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marco zero

São Paulo tem o som da colher de pau
batendo na borda da panela do arroz
- tem cheiro de arroz -
Tem o arrastar manco e quase cego dentro de um apartamento
de 40 metros quadrados cheirando a cigarro
com vista para uma rua sem saída
Nenhuma estrela neste teto encardido
que costumamos chamar de céu
Numa cama improvisada 
- dessas que desmontamos logo nas primeiras luzes do dia e 
dobramos tudo com bons modos e boas intenções - eu deitava a cabeça
era um ritual manso numa mescla de coragem e luto
coragem juvenil
luto geográfico
Aos domingos, havia algumas cervejas e tremoços em algum boteco 
com homens tristes e meninos correndo atrás do nada
- a tarde fria como uma piscadela do futuro -
Meu medo aumentava na proporção que o cheiro do sabão de casa ia 
sumindo das minhas roupas, da minha mala, da minha vida
- A saudade tem cheiro peculiar -
Mesmo depois de muitos anos, ainda ouço as pancadas da colher de pau e 
ainda procuro estrelas onde não há
- é o mesmo céu -
Muitos anos já e não conheço ainda esta cidade minha e não
esta cidade com o marco zero
bem no meio do meu peito
que é onde também badalam
            os doídos sinos da Sé

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