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o exilado

Um dia, assustei-me comigo mesmo. Antes disso eu só dormia enfronhado em minha mãe e coçando o meu nariz até adormecer. Isso todas as noites a ponto de arrebentá-lo de vez. Como são estranhos alguns requisitos de Morfeu, não?

O fato é que na infância não nos damos conta dos espelhos. Sabemos deles, do nosso reflexo neles, mas até aí o que poderíamos fazer com isso? Nessa fase, há sempre coisas mais interessantes do que os espelhos, nossos reflexos neles. As crianças os desdenham por simples ausência de motivos, os idosos, por tê-los em demasia.

Sim, assustei-me comigo mesmo. Foi quando tive de entrar no quarto da minha mãe para pegar algo que agora não me lembro. Os dias, feito serpentes em seus movimentos ligeiros e inaudíveis, iam longe. Eu sentia algo diferente em meu corpo, mas eu não sabia lidar com isso, ou talvez, não quisesse mesmo pensar sobre. Era algo como uma trama silenciosa. Eu sentia. Também percebia que a cama da minha mãe já não me parecia tão grande. E eu até podia apostar com qualquer um que era ela que diminuía. Também notava que eu já não mais trafegava por meu antigo mundo de castelos, dragões e espadas fosforescentes com a mesma intimidade de antes. O olhar de minha mãe, aos poucos, deixava de ser duas aves leves para se converter em um muro que crescia e crescia. Não foi ela que me disse: "vá dormir no seu quarto, você já é um homem". Foi o espelho.

Como dizia, entrei no quarto dela para pegar algo - ainda não lembro o que - Era um final de tarde. A casa estava invadida por luzes e sombras como se noite e dia brigassem pelo mesmo espaço no tempo. Logo que entrei no quarto, e procurava a coisa - não consigo mesmo me lembrar - vi alguém. A primeira reação foi fechar os olhos e soltar um grito. Aquele grito antigo, desesperado, que encerra todas as nossas angústias e medos e que, independentemente da nossa vontade, salta da gente como se buscasse vida própria. Como um gênio da lâmpada que se rebela e burla todas as regras dos contos de fadas. O grito colocou todos em alvoroço. Porque, em pânico, dizer que tem um estranho dentro de casa, no quarto da minha mãe, não poderia ser diferente. Meu pai pegou um porrete, meu irmão, outro. As meninas foram para a calçada com a minha mãe. Eu, um pouco atrás, - por que não poderia ficar com as meninas lá na calçada? - fui entre o meu pai e o meu irmão mais velho. Vasculharam tudo. Nada. Após olhar sob a cama, meu pai ergueu-se. Trazia uma das mãos na cintura, fazia careta e logo deu um leve gemido. O porrete em sua mão, agora me remetia mais a uma bengala. Ainda olhando para as coisas como se a qualquer momento alguém pudesse surgir num afã de fuga, ele me perguntou: "como era esse homem?". Não soube responder, pelo simples fato de que eu ainda não o conhecia. Há um tempo que vinha evitando-o, não? Só fui mesmo conhecê-lo, quando, em movimentos desengonçados para tentar explicar onde eu estava no momento do susto, avistei o provável invasor - e o que era essa pessoa, senão um invasor? - Vi-me no espelho. Eu. Sim. Eu e o homem, o homem e eu. Vi os dois. Sentei-me na cama - esse foi meu último contato significativo com ela - como um condenado que fica sabendo do dia da sua execução. Sentei-me não pelo ato espontâneo de dobrar os joelhos e procurar algum apoio, mas pelo peso bruto da minha nova existência. Eu havia crescido. Assustava-me mesmo o homem no qual eu havia me tornado.

Quando meu pai, batendo as mãos – que eu não sabia se era pra tirar o pó ou como um gesto de indiferença - e o meu irmão me olhando de esguelha, deixaram o quarto, arranjei coragem e logo me postei diante do espelho. Que momento mais assustador. Que espaço mais gigantesco. Que eternidade. Vi os músculos salientes, vi os braços e pernas como a se esticarem em fuga. Vi as mãos, os dedos gigantescos. A cabeça, meu Deus. Nada mais parecia me pertencer. Havia outras coisas, mas eu ainda não sabia defini-las. Fiquei ali, parado, sei lá por quanto tempo. Apenas ali. Sentindo-me um exilado de mim mesmo.

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