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quase

hoje, conheço mais as fotos que as pessoas reais

a mala está cheia de experiência,

mas ficou muito pesada

não consigo                    a     r      r      a     s     t     á      -     la

                 tenho muitos outros sonhos, mas ficam para outra

                                                                                 existência

lembro-me de alguns beijos, ainda mais

daqueles que não me foram concedidos

tenho amigos, alguns, mas eles estão sempre ocupados

                        por outro lado, os inimigos são ociosos.

têm sempre muito tempo para mim

dessa vez, não queria mais falar na minha mãe

                                              - falo muito dela –

mas é maior do que eu,

     por isso...

mãe é como uma das pernas, se a perdemos,

sentimos ainda mais o peso do mundo.

é como um dos braços, se o perdemos, o abraço não fecha

como assim, não fechava as minhas equações de segundo-grau

meu irmão era meu super-herói, mas tinha medo de fantasmas

pelo menos não usava as cuecas pelo lado de fora feito o homem de ferro

- acho que é ele que usa -

não tenho medo da solidão.

almocei tantas vezes sozinho e já passei tanto o sal

para mim mesmo, à mesa, que perdi este medo

tenho fascínio pela violência veloz dos astros

p e l a  l  e  n  t  i d ã o  d  a  s   t  a  r  t  a 

                                                                r u  g  a  s

pela aspereza da terra

pela complexidade das teias de aranha

este é o sem sentido de mais sentido da vida

quando fico nervoso,

leio

quando fico cansado,

contemplo

quando estou vazio,

escrevo

sei o que é amar,

assim como sei o que é a Oceania no mapa-múndi,

mas o amor, pelo menos o carnal, é como aqueles produtos que os insones compram na madrugada e logo os abandonam no quarto dos fundos

queria o amor como um remédio sem efeitos colaterais,

                                                                nem contraindicações

sei o que é o ódio assim como sei o que é um prego na parede

                            o ódio é um animal carnívoro e de sono leve

vez em quando dou umas de querer trocar figurinhas como assim,

trocamos olhares nas ruas, mas ninguém tem mais tempo,

                                                     menos ainda, figurinhas

antes ficava feliz quando descobria algo,

como uma criança descobre uma palavra nova.

hoje já não sei o que fazer com isso.

há coisas demais na vida, assim como há palavras em demasia nos dicionários.

um indígena me disse uma vez que um homem só precisa de dez palavras para se comunicar.

já ganhei algumas vezes, mas perdi muito, além do muito.

no entanto, a chuva me ensinou que é preciso cair e erguer-se

novamente, para que as coisas continuem funcionando.

o que eu faria se ganhasse na loteria? gastaria.

não sei se sou eu que não sei lidar com o dinheiro ou ele comigo.

                                         o que sei é que não me falta quase nada.

                                                                      quase

me falta muito o beijo de boa noite da minha mãe.

                                                          - ela de novo -

só quando vinha me beijar é que eu pegava no sono

por isso, estou acordado até hoje, feito o inquieto menino Proust

                           com a sua lanterninha de fazer

                                                                 nascer

                                                                       fantasmas

                                                                            coloridos

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