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um punhado deles, e tudo bem.

Um dia sonhamos muito, como pródigos dos sonhos, depois sonhamos com uma certa cautela - alguns já não vingaram, normal - e muito depois, vamos tirando os sonhos impossíveis do nosso barco avariado para que ele não afunde e assim, possamos seguir na nossa jornada.
Sonhar é bom, dizem. Os sonhos despertos, assim como os oníricos não têm lógica nenhuma, por isso são sonhos e por isso são bons. Só a infelicidade tem lógica disse-me uma vez um senhor de muitos anos quando já não ousamos contá-los.
Sim, entendo, mas nunca caí de boca num doce depois das refeições, e sempre os ataquei pelos flancos, ou guardava metade para comer depois. Gostava de saber que num determinado momento ia ter uma metade me esperando. Ser comedido tem lá as suas vantagens. Algumas. Faço assim também quando me dou a sonhar. E não são doces os sonhos?
Não sei mesmo se um dia sonhei feito tia Dolores, na janela, com a mão no queixo e o olhar longe como se lambesse uma tasquinha do futuro. Tenho instintos felinos, sabe? sempre acho que meus bigodes não vão passar nas brechas de alguns recantos da casa. E sempre mergulho minha língua na água com muito cuidado, para não molhar o nariz. Faço isso também com os sonhos. Vou devagar, pisando manso, as orelhonas ligadas, um olho no sonho e o outro na janela. A gangorra felina entre a tascada e a fuga.
O que mais me incomoda em sonhar – sim, me incomoda - é a volta abrupta para a realidade, como se fossemos arrebatados dos braços de uma Madona. Ou mesmo a queda, dura, duríssima, de onde não quebramos o corpo, pior, danificamos a alma. “Braço quebrado, nós põe um troço e logo tá bom”. Era o que dizia um vizinho tagarela. E é verdade, ora. Já vi menino quebrar braço assim como vi frutas caindo maduras. Mas quando danificamos a alma, a coisa é feia. Nada resolve. Apenas fazemos um acordo com o tempo para que a dor venha em suaves frustrações. Assim, assim, como o remendo no soneto. Tem gente que sonha tanto que até parece a Vênus de Milo. E aí, deu, né? Pois sonhar ainda é possível. A imaginação é uma lebre numa corrida entre tartarugas, mas já não podemos mais colocar as mãos na massa. Será que a senhora Vênus estava tentando concretizar algum sonho? Penso que sim, e olha só no que deu.
Oh, Deus, o que vejo quando olho a cara dos homens? Vejo tantas coisas. Eles sonharam tanto e aqui estão eles. Olhem os olhos, a boca, o corpo como que em solavancos, o bruxismo, os passos incertos. Será que ainda sonham? Devem sonhar, devem sonhar. Assim, lhes foi ensinado. Sonhem, sonhem, assim, como avante, avante. Sempre. São homens ou são ruinas?
Então eu não sonho? Sonho sim. Mas nas prateleiras da minha loja de sonhos, tenho apenas alguns, poucos, quase nada. O suficiente para não me esquecer que um dia sonhei e preciso ter cuidado. Ora, há pouco retirei as minhas pernas cansadas dessa terra movediça e pisei um solo mais firme – ainda com emboscadas - que sei, posso trilhar sem a tão dura e certa queda no concreto da realidade ou nas redes impossíveis dos enlevos dos encantamentos. Já não posso cair tanto, entendem? Preciso cuidar dos ossos da minha alma, assim como os velhinhos precisam ter cuidado com os ossos do corpo. O fato é que só trago aquilo que posso carregar, só sonho aquilo que me cabe nas mãos. Alguns sonhos são bem pesados, vocês sabem disso.
Por isso, hoje, quando me deparo com uma ilha do tesouro, deixo o baú e levo apenas algumas joias valiosas. Um punhado delas e vou. Apenas isso e tá tudo certo. Ah, trago uma frase boba que minha mãe me dizia sempre quando eu, já querendo correr para rua, sentava-me à mesa para almoçar: “primeiro coma, depois você vai”. Frase que trago para a vida e para a morte. E é isso mesmo, hoje, primeiro realizo, depois, sonho.

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