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Anthony Bourdain estava certo

Com o tempo, percebo que, dos lugares que visitei, as lembranças das comidas são as que ficaram pra valer. Mais do que os famosos pontos turísticos, os passeios incríveis ou as pessoas interessantes que conheci por lá. Muito mais. Por exemplo, já me esqueci de algumas obras e seus respectivos artistas que vi nos inúmeros e imensos pavilhões do museu do Louvre, mas jamais me esqueço de um éclair que comi logo que saí do famoso museu. Quando mordi aquela coisinha e o leite condensado correu sob minha língua e o café, amargo e forte, animou ainda mais aquela festinha animada na minha boca, precisei me segurar no balcão – pardon, monsieur – para não sair dali flutuando. Nesse momento, soube quanto custa a felicidade: menos de três euros.
Situações assim, vivi em muitos outros lugares. Lembro-me que ao sair da casa de Anne Frank, em Amsterdã, ali no café da grande livraria da casa-museu, só consegui parar de tremer depois que provei o meu stroopwafel: waffles finos, unidos por uma generosa camada de xarope doce, bem quente. Lembro-me sim, do silêncio pesado na casa de Anne, a famosa autora do famoso diário, lembro do senhor Otto Frank, seu pai, num relato doído - e eu tremia por tudo isso - mas não me larga da boca, até hoje, o sabor daquele stroopwafel.
Ah, a paella, em Madrid, logo que cheguei com meu amigo Carlos. Estávamos cansados, porém famintos. Assim que aquele prato colorido, quente, suculento, foi posto diante de nós, nosso cansaço correu para debaixo de uma daquelas mesas feito um cachorrinho assustado. Até hoje, deve estar lá, a espreitar os turistas. E as tapas, meu deus. Às vezes, bebíamos além da conta, só pra nos deliciar com a próxima tapa. Em muitos balcões de Madrid, deixei a minha sede, a minha fome e grande parte da minha melancolia existencial.
Em Barcelona, vi uma lua enorme e pesada feito o olho irado de um deus caolho. Nunca mais vi lua como aquela. Mas lembro bem, ainda mais, de um pa amb tomàquet. Apesar do nome complicado, o prato se resume a uma fatia de pão tostada, tipo italiano, no qual se esfrega um tomate com um pouco de sal e azeite, entre outras coisas. Sim, na Itália, chamam isso de bruschetta, mas, em Barcelona, o nome do prato encerra mais magia. Enquanto o pão e tudo mais estala na língua a palavra pa amb tomàquet estala no ouvido. Lembro-me claramente, que enquanto eu devorava a iguaria, sentia o peso daquela lua única cochilando nas minhas costas.
Falar de um croissant, na França, pode soar clichê, mas não os meus croissants. Foi em Avignon. Eu tinha ido para o festival de teatro daquele ano. Só que me perdi na viagem. Viagem longa e cansativa demais. Me atrapalhei com os horários e tive de dormir numa fria estaçãozinha, na estrada. Passei a noite e a madrugada a ver trens e mais trens em partidas e chegadas, ouvindo os apitos dos homens, suas vozes de comando, e vendo os franceses em suas despedidas contidas. Um homem me trouxe um café. Jamais me esqueci do sabor daquele café. Tomei-o devagar, bem devagar, como quem prolonga uma gratidão. O fato é que cheguei moído em Avignon e fui direto dormir. Só no dia seguinte, revigorado, despertei com o cheiro divino de croissants divinos. Lembro-me que comi uns cinco, sem pausa nem piedade. Posso senti-los agora.
Como disse, foram inúmeros momentos assim: mágicos, epifânicos e, claro, muitos vão ficar de fora dessa crônica. Aqui, o espaço é curto, além do mais, a vida urge e muge. Bom, pra encerrar, lembro-me bem do moules frites, prato originário do norte da França e da Bélgica, que comi, em transe, no porto de Marselha, a cidade do famoso tarot. Oh, deus, as geléias do corcunda no hostel Château de Bois Luzy. E ainda o poulet frites, às margens do Rhône, com uma negra linda de dentes simétricos e muito brancos capazes de incendiar a noite. Era Tânia, uma atriz de Valência.
Mas sobre Tânia, ulála, já é outra história que um dia qualquer eu conto. O fato é que, ao escrever essa crônica, acabei ficando com fome, e agora vou ver se consigo preparar algo à altura das minhas queridas lembranças. Inté.

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