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naqueles dias

Tenho de escrever uma crônica, mas não quero, não hoje. Estou naqueles dias como assim se diz das mulheres. Não menstruo, evidentemente, mas é como se fosse, pois, uma amiga me disse uma vez que, naqueles dias, é como se ela habitasse um corpo que não é o dela, e que quando passa, é como voltar para casa, para si mesma. E é exatamente, assim que me sinto, hoje; num corpo que não é meu.
Entende isso?
Sei lá, todas as minhas lembranças estão jogadas feito destroçosa de um velho navio naufragado que o mar empurrou para as margens. Como disse um sábio: “o mar não quer aquilo que não é seu”. E hoje sou o mar. Não em sua dimensão - estou tão, tão pequeno, menor do que eu quando eu - sou o mar no que diz respeito à rejeição a tudo que não é da sua querência. E hoje, pouca coisa, pouquíssima, quase nada me pertence. Apenas uma que me espeta feito uma roupa nova, dessas que ganhamos de presente, e o presenteador em pessoa nos veste em seus movimentos alegres e cheios de expectativas, mas a roupa não nos veste, não nos cabe nem nos sobra, apenas é roupa que tudo espeta: o tecido, as estampas, a gola, a etiqueta, então, nem falo... ora, já falei. Coisa esquisita é essa de escrever; falamos que não vamos falar quando, na verdade, já falamos. Bom. Isto ou aquilo, o certo é que o dia, pelo simples fato de ser hoje, me espeta pra valer.
Entende isso?
Estou assim, então, neste não estar. Neste nem ficar nem ir.
Não há mais Grandes Guerras, fuzilamentos, nem crucificações, esquartejamentos. Não há mais crise dos mísseis, Stalin, Mao e Hitler estão mortos, os campos de concentração estão todos fechados, as minhas espinhas são só lembranças distantes, a minha vida vai, no entanto, estou aqui, a chafurdar as coisas feito vira-lata atrás do rabo, assustando-se com a própria imagem no espelho, latindo para sua sombra. Essas coisas que, dias assim, dias assado, nos chega feito carta virulenta que não nos foi endereçada, mas que só percebemos isso, quando já terminamos de lê-la e ficamos a nos perder em reflexões inflexíveis. Essas coisas sem nome e lugar.
Entende isso?
Sim,tenho de escrever uma crônica, mas não quero, não hoje. Amanhã, certeza. Amanhã é outro... será o mesmo dia, mas com uma roupagem diferente. Então, poderei escrever essa crônica. Hoje estou naqueles meus dias-delas. Até comecei a crônica, mas não sei como finalizá-la. Nunca sei. É sempre isso. Consigo um fim nos últimos minutos da prorrogação – puta clichê, esse – tá vendo. Forçar a escrita é como o sexo protocolar: marcar presença para poder fumar aquele cigarro sem culpa. Vou fumar um palheiro mesmo sem escrever a crônica. Mas, logo eu que gosto tanto de fumar um paieirinho depois que finalizo uma crônica e envio para o editor. Mas não vai ser dessa vez. E já tô aqui preocupado como vou finalizar este bendito texto.
Começar uma crônica não é fácil, como dizem por aí, alguns desavisados. Desenvolver, menos ainda, finalizar... oh, deus... escrever é um inferno. Philip Roth estava certo. Um inferno, uma perda de tempo. Enquanto estou aqui a matutar com as palavras, tem um cara nas Maldivas curtindo a vida adoidado. E esses caras nunca escrevem nada, só ganham dinheiro. Não ganho dinheiro porque perco meu tempo escrevendo.
Mas é isso, apesar de hoje eu não ser eu, não estar eu, amanhã serei e estarei eu novamente. Com certeza sairei pra comprar um livro, e logo escreverei algo... com raiva e prazer, assim como torcemos por um time. E assim vamos até morrer, sem mudar de camisa – olha, estou até mais animadinho.
Há essa crônica assim, assim, - é o que tenho - e cá estou, aos tropeços de mim, atrás de um fim. Mas não o tenho, confesso, e se não o tenho, fazer o quê? Ora, fazer o disse o escritor Lobo Antunes: é só deixar tudo em branco a seguir.
Entende isso?

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