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nova chance

Há muito, quando ficava hospitalizado, proibia todos os meus amiguinhos de me visitarem. Só minha mãe podia, ninguém mais. Se esta tinha me visto nascer, podia, então, me ver desmazelado, num iminente estado de desnascência.
Hoje, nem minha mãe. Deus a proibiu de vir me ver. Então, agora sozinho, fico no hospital, a olhar pela janela numa melancolia de órfão. Eu sozinho querendo ir com aquele carroceiro que dobrará à esquina e logo desaparecerá de vez da minha vida, querendo beber um café com aquele homem que acena sorridente para um outro que passa, eu sozinho querendo cruzar a rua feito aquela mulher que, esfuziante, atravessa a faixa de pedestres. Querendo até ser a faixa de pedestres. Qualquer coisa, menos eu ali, a olhar e a querer as coisas que, dias antes, saudável e sob o sol, não dava a mínima. Sempre isso.
Quando estamos num quarto de hospital, nesse estar não estando, nesse ser não sendo, com um corpo que nos pertence e não, enfim, nosso olhar sobre o mundo muda por completo. É como se estivéssemos numa moldura a contemplar algo completamente indiferente a nós. Todas as nossas certezas se resumem ao branco das paredes e ao cheiro de álcool em tudo. Além dos movimentos enérgicos das enfermeiras que, sorridentes, levam o meu sangue, e depois, saem num rebolado imenso e festivo.
Uma vez, até que permiti que alguns amigos – os chegados, evidentemente, - viessem dividir comigo um pouco dessa melancolia asséptica e branca, da televisão que nunca ligo, da comida que apenas mordisco e a rejeito sempre, dos sapateados constantes nos corredores insones. E eles vieram. Mas foi triste vê-los deslizando em gestos de lesmas pelas paredes no intuito de darem mais espaço às enfermeiras - que é o que parece, nunca descansam - ou contando piadas sem graça. Na maioria do tempo perdidos em seus silêncios cheios de palavras indecisas, sim, com um medo danado de dizerem algo errado e de repente, uma daquelas maquininhas ligadas a mim começasse a apitar. E o que é pior, quando o médico vinha falar comigo, os meus amigos ficavam mais apreensivos do que eu. No que eu logo lhes dizia que eu é que era o doente ali, e portanto, eu apenas tinha o direito de ficar apreensivo e tudo mais.
Bom, depois dessa vez, nunca mais. Quando fico internado, costumo dizer aos médicos: “tirem meu sangue, fucem minha boca, pulmão, coração, me levem para lá e para cá dentro desse lugar que nunca dorme, façam do meu corpo o que bem entenderem e até o que não entenderem, mas de uma coisa não abro mão: não quero visitas. Nem da minha mãe, se agora, depois de morta, resolvesse me visitar”. No que eles sempre concordam.
Essa minha birra histórica – quem me conhece sabe – de não deixar que me visitem quando estou hospitalizado, não é só porque não quero impor aos meus amigos programa tão insosso. O que pega mesmo, é que, quando vinham me visitar, quando ainda permitia, e começavam a se preparar para ir embora, ao término das visitas, eu sempre me lembrava de uma frase do Rimbaud que eu havia lido nas minhas primeiras incursões pela poesia:
J’irai sous la terre
Et toi, tu macheras dans le soleil
[eu irei para debaixo da terra
E você caminhará sob o sol]
Claro, eu estava sendo radical. Mas não é assim que ficamos quando uma doença nos pega mesmo pela gola da camisa? – ou pelas bitacas, como dizia o meu velho com seu olhar para o chão, naqueles tempos – sim, é isso mesmo. Ficamos radicais, frágeis, sensíveis e com medo, muito medo. E na maioria das vezes, a cara do nosso medo não é nada boa. Não gosto que ninguém me veja desmazelado. Só não impedi que um bando de gente estranha me pegasse nos braços e me dissesse gugudádá logo que nasci porque aí não teve mesmo jeito, né?
Mas logo eu estava na rua outra vez. Saudável e esfuziante de novo, assim, como felizes saímos por aí com nossa primeira bicicleta. Feliz, enfim, por deixar o país da brancura cheirando a álcool e que por mais que fiquemos nele um tempo considerável, dele não queremos souvenir nenhum. O máximo que faço é, da rua, mirar a janela onde por um tempinho fui prisioneiro do meu próprio corpo. Só isso. Depois, me vou de vez, feliz e tão ligeiro que nem noto carroceiro nenhum prestes a dobrar à esquina, homem nenhum tomando café e acenando para outro que passa, e menos ainda mulher nenhuma que, esfuziante, atravessa a faixa de pedestres. Isso tudo porque tão compenetrado estou em mim mesmo e na minha nova chance de vida.

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