Pular para o conteúdo principal

tenho sempre um sonho que nunca sonhei outras vezes

Tenho um sonho intermitente. Quer dizer, intermitente porque é assim que parte de mim o concebe, enquanto a outra tem certeza de que nunca o sonhou antes. É mais ou menos como um déjà vu, só que no estado inconsciente. O déjà vu, dizem os especialistas, é uma falha no circuito cerebral relacionado à memória que resulta numa confusão entre passado e presente deixando-nos, apesar de todas as nossas suspeitas, a sensação de que já vivenciamos determinado momento. Ou é isso também que acontece nos sonhos intermitentes ou o inconsciente possui um calendário muito particular. Talvez venha daí a sensação de que não sonhei um filme, mas sim uma série.
O sonho é o seguinte: eu moro num determinado apartamento de um determinado prédio. Este, eu não conheço, apesar de me movimentar por ele com muita familiaridade. Há um elevador e nele sempre preciso subir para algum outro apartamento, para fazer algo urgente ou visitar sei lá quem. Pra subir é uma beleza. Tudo funciona. Aqui parece que o meu inconsciente está ainda resvalando no meu consciente. O que quero dizer é que sonho, mas percebo que há ainda algum controle da minha parte. Pelo menos acho. O problema começa mesmo quando tenho de descer. Talvez, nesse momento, o meu consciente já esteja babando nos ombros ardilosos do meu inconsciente.
Digo isso porque na descida a coisa desanda completamente. Quando estou descendo – quem foi que colocou aquelas plantinhas na escada? pergunto-me – depois de alguns andares, o elevador para e nada o faz mais funcionar. Tento de tudo. Nada mesmo. Quando a porta, enfim, se abre – sozinha - não estou mais no meu prédio. Aqui, lembro-me que deixei uma coisa valiosa – não sei o que é - no corredor do meu prédio. Fiz isso, porque achava que iria voltar logo. Foi mais ou menos como um homem que está carregando um peso e deixa-o um tempinho lá fora, enquanto compra uns cigarros. Foi isso. Como poderia imaginar que eu iria me perder dentro do meu prédio? Aqui intuo que os sonhos ao serem sonhados não nos entregam tudo de cara. Deve ser algo que vai se construindo do decorrer do sonho. É isso, ou ao sonhar damos umas de nos sabotar. Que coisa, hein? E eu poderia perguntar: com qual intuito? O fato é que estou perdido e ainda por cima preocupado com o objeto de valor que deixei para trás. Muito doido, não?
Agora estou caminhando por uma rua totalmente desconhecida. Não há uma só viva alma nessa rua. Até então. Em desespero começo a procurar por alguém. Entro em matas fechadas, nado em rios, subo, desço montes e montanhas, atravesso vales, e enquanto mais me esforço, exausto ao extremo, me perco ainda mais.
Até que chego a um povoado e encontro algumas pessoas. Falo com uma e com outra, mas elas parecem em estado de vigília ou como se estivessem num sonho paralelo ao meu. Não me ouvem, apesar de estarem ali. Por fim, depois de muito falar sem ser ouvido, um senhor resolveu me ajudar. Apareceu não sei de onde. Expliquei tudo – não lembro o que expliquei – e ele entendeu a minha situação. Solícito, subiu numa cadeira, mexeu numas caixas, abriu alguns papéis, e depois de um tempinho, nesse procurar sem pressa, me deu um pequeno papel pardo onde estava escrito o nome e o telefone de alguém. Não entendi nem o telefone nem o nome da pessoa. Quando olhei em volta o cenário já era outro. Parecia um quadro do Rembrandt. A atmosfera mudou. Ficou pesada. Penso que foi um pesadelo que tentou me enlaçar com ares de sonho, mas que não teve combustível suficiente para se tornar um pesadelo de fato. Ficou ali, entre uma coisa e outra.
O fato é que, percebendo a minha impossibilidade de voltar, como num jogo de videogame, que é quando percebemos que não temos mais vida e vamos perder tudo, antes do game over, acordei. A sensação foi dúbia: feliz por estar de volta à realidade e saber que tudo foi apenas um sonho – ou foi um pesadelo? - e um pouco triste por não saber quem eu era de fato e que tipo de vidinha levava ali. Talvez, mais um dos meus tantos eus afogados no grande oceano onírico. Vai saber.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

obrigado, António Lobo Antunes!

Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...

a velha casa II

O jardim onde, nas brincadeiras, eu me escondia detrás das plantas espinhentas. Nas minhas primeiras incursões etílicas da juventude, eu tinha de pular o muro para que o portão, com seu incurável canto em falsete, não me denunciasse e meu pai se levantasse em seu arrastado de sono e fúria. A rua silenciosa, o apito do vigia, o Caravelo, mais lento que o andador da minha vó, prestes a cair sobre nós, ali, sob cobertores cheirando a amaciante e ferro de passar. Depois de rezar, em vez de dizer amém, eu dizia: “não amanheça, não amanheça”. Os dois lados escuros da casa – as lâmpadas sempre queimavam - que iam dar no quintal. Lá, a goiabeira onde chorei e sonhei e vi, dias sem fim, a menina sair do banho. O tilintar de pratos e copos dos vizinhos e a sensação de que dentro da noite eu estava protegido do mundo. Sobre a geladeira, o sarcástico pinguim que sabia mais de nós do que nós mesmos. Ali, em cima da velha cônsul asmática, ria a rodo dos nossos desencontros. A minha irmã sonâmbul...

a alça fria do peso da sua ausência

Quando meu irmão faleceu, não fui ao enterro. Adianto que não estou a justificar nada – e isso se justifica? -, mas é que meu pai havia morrido alguns meses antes e não vi mesmo força nenhuma para outra empreitada do nível ou pior. O que dói na morte não é somente a perda. Sabemos que, mais cedo ou mais tarde, morremos. É um acordo tácito, ou seja, antes de nascermos, não nos é apresentado um contrato no qual está escrito: “você vai nascer, passar um tempo – sabemos lá quanto – depois você morre. Assine aqui embaixo”. No curso da nossa vida, acabamos aceitando a ideia – aceitamos? – como um enfermo, uma hora, aceita a sua moléstia. O que machuca mesmo, e é aqui que a chapa esquenta, é a forma como a indesejada das gentes, como Bandeira gostava de denominá-la, tira-nos pessoas queridas. Melhor dizer nos arranca, sim? Porque é isso que ela faz. Lembro-me do meu pai, homem de voz de martelo de Thor com a qual até a casa se assustava. Mas era doce que nem os picolés de castanha da minha ...