Depois de alguns anos, ele largou o seminário para se casar com uma moça bonita que morava na mesma rua que a minha. Quatro casas depois. Ele sofreu muito, pois era difícil, dizia ele, lidar com os dois lados da gangorra: de um deles, a vocação, o sonho do pai, da mãe, e o quanto a coisa do seminário já ia longe, do outro, aquela menina de sorriso largo, bochechas vermelhinhas e olhos ligeiros por quem ele estava apaixonado.
“Meu doce”. Era assim que ele a chamava. Ela ria, rodava nas mãos os cabelos longos ameaçando um cocó, mas soltava-os logo em seguida, ainda rindo e se remexendo como quem não cabe em si, e ele: "meu doce, meu doce". Estava ainda pegando o jeito. Há muito não circulava pelas coisas mundanas. Então, ia devagar para não derrubar o andor.
Todas as noites - e as tardes de domingo - ele caminhava alguns quilômetros só para vê-la. Ao sair de casa, pedia a bênção da mãe e do pai, espanava os cabelos do irmão mais novo e saía em seu andar duro e ligeiro. Assobiava. Penso que Deus já não pesava tanto em suas costas. “Deus é pesado”. Dizia. “E exigente”. Reforçava. Se impacientava quando o apito da passagem do trem soava e logo depois a centopeia de aço passava como se quisesse levar tudo e todos. Aquilo não acabava nunca, e ele tinha pressa. Temos sempre pressa quando estamos apaixonados.
Depois que o trem passava, a vida voltava ao normal, e todos se punham em movimento. Então, ele seguia, ainda assobiando. Namoravam no portão. Ela pelo lado de dentro, ele pelo lado de fora, o cadeado no ferrolho e o irmão mais novo ali, a descascar pitombas: um olho na irmã e o outro nas pitombas. E aquele namoro no portão tinha um tempo. É. Quando o ex-seminarista chegava, dando boa noite a todos como se os benzesse, o pai da moça bonita começava a contar o tempo como assim fazem os terapeutas, psiquiatras e companhia. Quando dava a hora, o velho ia até a porta e pigarreava. Pronto. O namorado precisava ir.
Não vou me estender como eles se conheceram, pois essas coisas nunca são precisas. Uns contam umas histórias, outros contam outras. O que sei é que ela frequentava, aos domingos, a igreja onde ele atuava com o padre veterano. E todos os domingos, conversa vai, conversa vem, na porta da igreja ao término da missa, então, ele veio, um dia, com a história de que ia largar a batina porque não tinha mais a mesma convicção. Na verdade, não conseguiu dizer logo de cara que estava envolvido com a moça. Essas coisas levam tempo.
Ele aguentou firme o namoro no portão, o irmão dela a descascar pitombas, ali de bituca, e os pigarros do pai. Então, noivaram. Agora ele podia entrar e namorar lá dentro, na área, com as cadeiras uma de frente para a outra. Mas ainda com o menino das pitombas, o tempo contado, e os pigarros do pai. Agora o velho também ficava num entra e sai desembestado de tudo.
A coisa seguiu um tempo assim. Meses, anos. Até já falavam em casamento. Então, a moça, sabe-se lá por que, foi, aos poucos, ficando triste, chorosa, esquiva. Seguia ainda com a coisa toda, mas já sem o mesmo interesse. Ele perguntava isso, aquilo outro, mas ela só dizia: ”num é nada”. “Diga, meu doce”, ele insistia. Mas ela, impaciente, irritada só dizia que não era nada. E foram assim, meses e meses, e a moça cada vez mais macambúzia.
Uma noite, ele chegou com suas costumeiras saudações e bênçãos quando ouviu uma gritaria toda lá dentro da casa. Ficou ali, na área, a esperar que tudo amainasse. Trazia um presentinho para a noiva. Ele havia comprado no centro. Achou a cara dela. Mas ele, se pudesse, compraria o mundo, pois tudo tinha a cara dela. Quando a discussão ali, entre a filha e o pai, parasse e tudo voltasse ao normal, ele iria propor a data do casamento. Pensava ele, inquieto, com o presentinho entre os dedos.
Então, após toda aquela gritaria, o pai da moça bonita veio até ele, sozinho, e sem meias palavras disse-lhe que seguisse o seu caminho, que procurasse outra noiva, pois aquela filha teimosa dele, sabe-se lá por que cargas d’água, não queria mais se casar com ele. O velho estava sofrendo, via-se isso na cara, na voz, nos movimentos dele. Com o tempo, apegara-se muito ao seminarista que era bom e nunca criava problemas a ninguém. Mas ele não mandava no coração das pessoas, nem no das filhas, dizia. Quem podia fazer isso era Deus, e ele não era Deus, era apenas um pai. Se a filha estivesse roubando, ele com certeza a castigaria. Mas sobre as coisas do coração não sabia lá ele muita coisa.
O fato é que a moça bonita apaixonou-se por outro rapaz. Um de bigodinho fino e fala cantante. Um especialista no mundo mundano. Se calhar, seria capaz de passar pelas venezianas das janelas e pelas frestas dos portões. Nada talvez, o segurasse, nem meninos com pitombas e olhar à espreita, nem pigarros. Vai ver, era superior ao tempo. Até mesmo ao tempo dos terapeutas.
O seminarista ainda tentou, implorou, chorou, mas a moça foi inflexível. Então, ele ficou um tempo sem aparecer. E todos o deixaram em sua dor. Quem sabe agora voltasse para o seminário. Podia ser. Até que numa manhã, um menino veio correndo, gritando, desesperado. Dizia a todos que fossem lá, que fossem lá. Os homens e as mulheres pediam que respirasse, que tivesse calma, porque ninguém estava entendendo nada. “É o seminarista, o seminarista”. Insistia o menino. “O que tem o seminarista, rapaz de Deus? As pessoas ali perguntavam. “Ele, ele”. O menino se esforçava, mas aquilo dentro dele, em seu peito sem ar, era maior do que ele. Tinha, então de sair aos poucos. Que tivessem paciência. E ele foi dizendo: “o seminarista vinha caminhando, entende? E já tinham disparado o alerta. E tudo e todos estavam parados, como sempre. A vida sem ir. E o seminarista vinha. Só ele caminhava. E ninguém entendeu nada. Ninguém ali tinha voz, ficamos mudos. Só se ouvia o alerta. Uma barulheira danada. Todos já sabem como é. Eu em cima da minha bicicleta, ali, esperando, e o seminarista numa pressa sem preço. Indo para onde, Jesus? Isso ninguém sabia. Todos os olhos das pessoas em cima dele como os olhos de Deus sobre todos nós. E ele vindo. Então, como se não bastasse o barulho do alerta pra gente esperar, ouviu-se um grito danado, o grito de aço do trem. Nunca tinha ouvido aquele trem gritar daquele jeito, gente...era...era como se estivesse morrendo em agonia. Depois, depois... é... Deus... depois, um baque surdo, uma coisa horrível. E nada do seminarista, nada. Nem olhei mais, chega, eu disse. Então, dei meia-volta com a minha bicicleta e vim contar pra vocês. E é isso. Quem não acreditar que vá lá ver, tem muita gente, gente demais. E o trem tá um pouco mais pra frente, parado, ali, feito alguém muito arrependido do que fez. E não é pra menos, viu? não é mesmo. Podem ir lá conferir se quiserem, mas não recomendo. Não mesmo.
Comentários
Postar um comentário