Se escrevo, fico mal, se não escrevo, sinto-me pior. Acaricio as teclas como a tentar decifrar um código secreto, como a burilar a vida para que se organize, tome tino, rumo. Qual região do meu ser o farol ilumina neste momento em que busco palavras como se procurasse a porta dos fundos? E não é a mesma coisa? Há este dia feito um velho leão marinho morrendo na praia. Há este frio sem cara de frio. O cinza do céu feito uma cortina fechada antes do primeiro ato de um drama. Vai ver todos os anjos agora estão inquietos nas coxias, nos camarins em suas peraltices celestes só esperando a hora. O bom dos anjos é que não precisam fazer o sexo de domingo nem almoçar com estranhos a digerir os ossos do silêncio, entre muitas outras coisas em dias assim, assim.
Por isso procuro escrever. É como cavar a própria sepultura, sei bem. Há momentos em que atravessamos um dia, todo um deserto, mas não conseguimos cruzar uma hora, a nossa sala. Numas, cabemos no mundo todo, no cosmos, noutras não nos encaixamos em nós: a cama é pequena, o lençol é curto, a noite é longa, a vida é a vida. Gostaria de estar no mundo assim como as horas estão nos relógios.
Feito um cansado vigia noturno, o olhar roda pela sala – é mesmo aqui que habito? – e me demoro a contemplar uma cadeira em sua inércia, indiferente às intrigas do mundo. O que anseia esta cadeira? Pergunto-me e, confesso, espero que ela me responda. Vejo os porta-retratos comigo ali a desconfiar de mim aqui. Se eu me encontrasse comigo mesmo bem provável que nos estranharíamos como os cachorros das madames quando passeiam pelas ruas. Não sou mais aquele ali a sorrir com um sorriso que não é meu nem sou mais este aqui a procurar o meu sorriso que deve ter caído debaixo do sofá como caía a dentadura sempre sorridente da minha vó.
Fuço um livro e me pego lendo este verso de Jorge de Lima: “que culpa temos nós dessa planta da infância, de sua sedução, de seu viço e constância?”. E algo estremece – em mim ou na casa? – Sempre isso: a infância que reverbera feito as trombetas a fustigarem os muros da minha Jericó já muito longe e quase sem muros. Sou um menino trajado de adulto, um menino na fila da sopa, achando que é a do pão. Posso me ver dentro de calções curtos – ainda aqueles feitos pela minha mãe - a caminhar com dificuldade enquanto arrasto os anos indesejados num cordão quebrado que antes arrastava o meu carrinho perdido no tempo, com as rodinhas a correrem soltas por aí, sei lá onde, muito provavelmente, rumo à casa dos meus primeiros anos.
Os sinos da igreja da Bela Vista soam em badaladas monótonas lembrando a todos dos seus pecados. Eu tenho os meus e deles não abro mão. São parte do que sou. Sem eles sou um homem com metade do coração. Mas gosto dos sinos, me remetem a pastores tocando suas cabras, poeira, sol, lonjuras, lugares exóticos, línguas mortas. O sino badala mitos. Eu badalo junto, aqui dentro, em algum lugar de mim.
Penso que nessa coisa, há pelo menos umas duas frases que já posso guardar. Ainda anseio por outras, legítimas feito cafuné de mãe. Acaricio as teclas e vez em quando olho o cinzeiro feito um túmulo sem morto. Lembro que há alguns dias deixei de fumar. Para que é que não sei. No fim, acho que já tenho um texto. Vou usar a machadinha. Gosto disso. Escrevo para deletar. Sim, olhando bem, tenho um texto. O que ainda não sei é como atravessar este sábado com jeito de domingo. Há anos que não sei o que fazer com os domingos. Principalmente, assim cinzentos, silenciosos, com sinos, e um pipoqueiro tardio. Vou olhar debaixo do sofá, vai ver acho a dentadura da minha vó. Oh, isso salvaria a minha alma. Pelo menos, por hoje.
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