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fronteiras do ilimitado

Não aprendemos a escrever livros. Aprendemos, quando muito, a escrever determinado livro. Aquele que estamos trabalhando no momento. Cada texto é um texto, com seus caminhos, possibilidades, demandas. E são iguais os filhos de uma mesma mãe? E são iguais os galhos de uma mesma árvore? as ruas de uma mesma cidade?
A cada livro vou apalpando feito alguém dentro de uma loja de cristais numa completa escuridão. Escolher palavras - esta sim, aquela não - é mesmo como tocar cristais. Nessa escuridão, vez em quando, iluminada por um farol, conseguimos uma frase que valeu o esforço. Porque é isso mesmo, um esforço. Vamos empilhando páginas e páginas assim como um trabalhador das docas empilha sacas e mais sacas.
Por que então permanecemos escrevendo? há muitas e nenhuma resposta para isso. Pelo menos é assim que vejo. Faulkner disse que escrevia pra ganhar dinheiro. Claro que dizia isso para fugir de perguntas com possíveis respostas embaraçosas. Dostoiévski eu sei que escrevia para pagar contas: era viciado em jogo e vivia desesperado com os credores. Acho que foi Hemingway quem disse que escrevia apenas porque não sabia fazer outra coisa. Jorge Amado disse algo parecido.
O que digo - dessa vez - é que permanecemos escrevendo justamente por isso, por ser um esforço. Há muitos por aí esperando a inspiração. Nunca senti que escrevi algo inspirado. Soprado pelos deuses, pelas musas. Estes morreram, há muito, apenas nos esqueceram de avisar. O que ocorre, acredito, quando uma frase sai melhor, quando discorremos com mais desenvoltura, quando aparecem alguns achados, e mantemos a mão, é que estamos mais despertos, mais focados na coisa toda. Na maioria das vezes, física e mentalmente, estamos bem. Talvez, uma noite bem dormida, não sei, algo assim. E quando me encontro dessa maneira, é quando mais me esforço, mais trabalho, mais me empenho. Então, a coisa vem. Gosto da frase do Picasso: “Quando a inspiração chegar, vai me encontrar trabalhando”. Acredito nisso. O resto é esperar Godot.
Se faço planos, pré-escrita, coisas assim? Há escritores que, antes da campanha de escrita, fazem planos e mais planos. Respeito. Cada um tem seu jeito e tá tudo certo, mas eu não faço necessariamente, um plano. E a receita é o bolo? a planta da casa é a casa? O roteiro de viagem é a viagem? Sobre isso, ouvi uma vez que, ao nos perdermos pela cidade que estamos visitando é quando a viagem começa realmente. Ou como disse o Bourdain: “seja um viajante, não um turista”. Uma coisa difere da outra. Mas enfim, o que faço antes da escrita é um esboço. Um pedaço rasgado de um todo, de um mapa, que seja, e ao escrever, tento juntar o meu pequeno pedaço de papel às outras partes imaginárias. Nem sempre consigo, mas tentar já é válido. Jogo muita coisa fora. E se foi descartado é a lata do lixo o seu melhor lugar. E nunca, nunca me deleito com o que escrevo. Já passei dessa fase. Na verdade, sempre fico cabreiro, achando que tá tudo muito ruim. Só depois de um distanciamento de um ou dois anos - isso é cá comigo - é que tenho, quando muito, algum vislumbre sobre o que escrevi. Mesmo assim, ainda com o pé atrás. os dois.
Mas há também escritores que não fazem planos antes de se postar a escrever. O Vila-Matas e a Clarice Lispector disseram que se soubessem, antes, o que iriam escrever, nem começariam. O rei dos leitores, Stephen King disse também algo assim. Respeito. É o jeito deles, e tudo certo.
“O texto barganha” disse Nélida Piñon. E cada texto faz isso numa nota diferente. Como começo este livro? o que realmente quero dizer? já não disse isso no anterior? Não estarei me repetindo? Tenho o que dizer, sim, mas como vou dizer? Sobre começar um livro, ou seja, as primeiras linhas, essa angústia, pode ser percebida no documentário José, sobre Saramago. Há uma cena em que a câmera fica nele alguns bons minutos. Ele esfrega as mãos, várias vezes, tenta teclar, desiste, esfrega as mãos novamente, suspira, olha para os lados, e enfim, começa a teclar, mesmo assim, ainda vacilante. É disso que falo. Saramago já havia escrito muitos outros livros, no entanto, ali, parece mais um escritor escrevendo o seu primeiro livro, o que não deixa de ser verdade. Para um grande escritor, todo livro será sempre o primeiro.
Lobo Antunes, escritor português, disse que escrever é esforçar-se constantemente, no afã de colocar toda uma vida dentro do livro. Isso me remete à procura dos astrofísicos por uma equação-única. Se estes conseguirem unificar todas as leis da natureza e fenômenos cósmicos em um só modelo, pergunto-me, então, o que buscarão depois. Enquanto isso, nós, escritores, que, segundo Apollinaire, trabalhamos sempre nas fronteiras do ilimitado e do futuro, continuaremos a tentar pôr toda uma vida no livro que estamos escrevendo - e aprendendo a escrevê-lo - sem nunca conseguir. E todo esse esforço, mesmo que falho, é válido, porque o que almejamos é sempre maior do que aquilo que podemos dar, e, entre uma coisa e outra, vamos nos esforçando, vivendo, tentando, seguindo. Tudo bem. Mas sem essa de deuses, musas, menos ainda, esperar Godot.

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