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lagartos, cobras, aranhas e britadeiras

Dizem que Barcelona é ruidosa. Não, estive lá e vi. Barcelona é festiva. A minha cidade, sim, é. Ruidosa no mais alto grau de insanidade. Estão sempre demolindo e construindo, ou apenas, destruindo. Nem bem iniciam a demolição de um prédio e já começam a vender os apartamentos como os vendedores de cemitérios vendendo túmulos. Pelo menos, no caso dos túmulos é muito provável que os mortos os ocupem um dia. Agora, sobre os apartamentos, como os coitados dos compradores sabem se estarão vivos quando os cubículos estiverem prontos?
Bom, mas eu falava do barulho da minha cidade, esta que amo, apesar de tudo. Vivo aqui e pretendo que um dia as minhas cinzas se misturem ao gás carbônico das avenidas. Isso é uma coisa. Outra, são as construções, as reformas. Uma termina e outra começa, às vezes, vão as duas juntas, competindo entre elas qual faz mais barulho. É o que parece. Um inferno.
Minha cidade, posso dizer, é a terra das britadeiras. Você não tem como fugir. Há muitas, por todos os lugares. Tentar fugir delas é como um infeliz procurando escapar de uma danação. Elas nos perseguem. E o pior de tudo. Fato. Quando começa uma reforma no meu prédio, é sempre num apartamento acima, dos lados, ou abaixo do meu. Então, como aqui, as paredes são muito finas - numa noite de sexta ou sábado dá pra ouvir o início e o fim do clímax das paixões desenfreadas, dos afãs dos desejos mais secretos, com direito até ao “foi bom pra você?”... - é como se a britadeira estivesse perfurando os nossos ouvidos. Que inveja dos apartamentos muito acima do meu. Lá, parece que os moradores dormem o sono das pedras. Digo isso, porque, quando vou colocar o lixo pra fora, passear com o cachorro, pergunto sempre a um morador do décimo segundo, décimo terceiro andar: “e aí, como estão lidando com a reforma?”. No que eles em gestos malemolentes, numa cara de noite bem dormida, me respondem: “que reforma?”. Oh, inveja. Sim, inveja. Não invejo a conta-corrente, o carro importado, a mulher do vizinho, não. Invejo o silêncio que eles têm.
Mas têm horas que gostaria mesmo de ter muito dinheiro pra fazer como o Stephen King. Quando percebeu que iam construir uns resorts perto do sossego da mansão dele, foi lá e comprou tudo pelo dobro do preço. Aqui ninguém constroi nada. Foi o que ele disse aos vendilhões. Mas se as pessoas tivessem um mínimo de decência, não precisaríamos sair por aí comprando tudo aquilo que nos aborrece, sim? A especulação imobiliária causa inúmeros danos ao meio ambiente, e disso já sabemos, não? desmatamento, destruição de habitats, degradação ambiental em áreas costeiras e a conflitos sociais pela disputa de espaço, enfim. Mas isso é assunto pra outro texto. Num vai ficar barato não. Essa esculhambação imobiliária é também muito prejudicial aos ouvidos. Como se ouve um Beethoven, um Bach com um senhor quebrando concreto bem dentro da nossa cabeça? Como podemos, Deus, apreciar a Gymnopédie, de Satie, um disco do João Gilberto, só voz e violão, com martelos, britadeiras, lixas e companhia? como? Nem o Sepultura, de quem sou fã de carteirinha, dá pra ouvir. É esperar, impassível, que dê a hora e eles arrumem as suas tralhas e vão para casa cuidar dos seus como qualquer outro trabalhador brasileiro.
Um dia eles fizeram tanto barulho, mas tanto barulho - e eu com os dedos sobre as teclas do computador: não ia, não ia - que desci um pouco antes de eles terminarem e ir para suas casas e fiquei ali, esperando-os para, com o dedo no nariz de cada um, soltar cobras, lagartos e aranhas. Mas quando vi aqueles rapazes grandões, simpaticões e, nos olhos, resquícios de uma adolescência ainda recente, além disso, com aquele jeitão de que estão ali apenas para fazer o que lhes mandam, desisti, sério, e fui para o espelho apontar para meu próprio nariz e sobre mim soltar cobras, lagartos e aranhas. Sim, Porque tá tudo errado, e não sou eu que vou consertar essa coisa. Dizem que esses rapazes que, desde meninos, trabalham com britadeiras, em poucos anos, têm problemas graves nas juntas. É o que dizem.
É melhor ser surdo? não. Isso resolveria alguns casos apenas, não o problema em si. O buraco é mais embaixo. E como disse, isso é lá com Santo Antônio, como dizia minha avó. O que eu queria mesmo dessa insanidade imobiliária é que fossem quebrar na Cordilheira do Andes, na Antártida, Na Unterstinkenbrunn, no Colo do Pito, na P…..onte que caiu, e me deixem, pelo menos, deus do céu, finalizar a droga desse texto aqui.

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