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num piscar de olhos

Foi como se eu fechasse os olhos um tiquinho e os abrisse logo em seguida e cá estou com a idade que tenho agora. Digo isso, porque quando fechei os olhos eu era ainda um menino de calções curtos costurados pela minha mãe, arrastava um carrinho de lata e com os olhos lânguidos - meu pai dizia que eram olhos de pidão - olhava os adultos de baixo para cima como quem contempla aviões.
Vejo a coisa dessa forma porque foi tudo muito rápido. Sim, parece que foi ontem que me alegrava quando ia comprar o bolso do uniforme. Era um retalho de nada com o nome da escola ainda cheirando à tinta. Minha mãe costurava aquilo na minha camisa e eu me sentia ainda mais estudante. Depois, a diretora, com olhos de águia, ia verificar se todos os alunos, em forma no pátio, estavam com o bolso. Caso contrário, saiam da formação puxados pela orelha:
e o bolso, hein? e o bolso, hein?
Nas minhas mãos ainda está o pó das pedras que eu atirava nas mangas, lá no sítio do seu Mané. E trago, entre os dentes, os fios dessas mangas doces feito mel. Também ainda ouço claramente, os gritos da minha mãe:
vai tomar banho, sujeira, e lava bem as orelhas
Minha mãe era severa. Após o banho, segurava a nossa cabeçona, rodava-a para um lado, depois para o outro a conferir a limpeza. Se estivessem sujas, voltaríamos ligeirinhos para o banho e agora ela que faria a limpeza. E aquilo doía pra dedéu. Nas virilhas eu nunca sabia se ria ou se chorava. Era uma coisa numa mescla de dor e cócegas. Depois, dispensados, podíamos, então, na ponta dos pés e morrendo de frio, correr para o quarto atrás de uma toalha porque sempre que íamos tomar banho, sei lá por que, esquecíamos da bendita. Àquela época, era difícil entender por que tínhamos de lavar aquilo que as pessoas não viam. Se não viam, não estavam sujas, não? Era o que eu achava.
O problema todo é que fechei os olhos um tiquinho - como a gente fazia em algumas brincadeiras de criança - e os abri logo depois. Não devia ter feito. Por isso, este adulto aqui ainda com o barulho do mar zumbindo nos ouvidos dos passeios à praia que meu pai e minha mãe faziam com todos nós em alguns domingos felizes da nossa infância. Ainda sinto o gosto daqueles sanduíches preparados com muito carinho e o espirrar dos refrigerantes que me remetiam aos caminhões quando, de madrugada, paravam nos postos de gasolina, e os motoristas, ao descerem da boleia, batiam a porta num enfado de cansaço e graxa. Foi num tempo em que eu matava aula só para viajar com o meu pai. Até hoje tenho uma coisa com as estradas e acho que elas têm algo comigo. Estamos sempre indo um ao encontro do outro.
O que quero dizer é que nem bem me curei da caxumba e me vem este adulto. Ainda me arde uma queda da bicicleta logo após o meu pai tirar as rodinhas traseiras, e me vem este adulto. Com que intuito? Com que direito? Este adulto, sim, eu, com a idade que não me cabe, assim como não me cabe os calções curtos de minha infância, o conga que eu usava na escola, a camisa do meu time preferido. Cá estou tentando fechar a minha idade como fazia com as minhas equações do primeiro grau que nunca, nunca fechavam.
Sou, então, é o que posso dizer, e contra a minha vontade, este adulto misturado: o homem e o menino. Não, o menino e o homem. Durante algum tempo, quando ia pegar a minha filha na escola, via as crianças com alguns brinquedos e me dava uma vontade danada de brincar com eles. Até que um dia me sentei e brinquei pra valer a ponto de até brigar por alguns brinquedos. Por diversas vezes tive de me levantar rapidamente, para falar com a diretora logo que ela despontava no corretor. Afinal de contas eu estava ali justamente para isso. Eu batia então, a terra do meu terno e trazia de volta a minha cara de adulto, mas tenho certeza de que a sisuda diretora nunca entendeu a coisa.
Cá estou pensando: Se o adulto que sou hoje é resultado de um fechar e abrir de olhos, será que se eu fizer isso agora voltarei a ser aquele menino de calções curtos? Se sim, nunca mais vou fechar os olhos, nunca mais, nem pra dormir. Prometo. E menino tem palavra, viu? Só tenho o receio de ao invés de voltar a ser menino, apareça uma bengala nas minhas mãos. Difícil, hein? O melhor mesmo é deixar assim e assumir de vez este indesejável adulto.

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