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nunca é, nunca é

Estava aqui pensando: os meus relacionamentos nunca acabaram em pizza. Quem dera se resumissem a intrigas de cartolas e que depois tudo fosse resolvido numa pizzaria qualquer. Nada. Meus namoros terminaram pra valer. E era sempre final de semana, e pra piorar, chovia. E havia uma dor sem nome e que não adiantava correr para a farmácia de plantão mais próxima porque, para isso, ainda não fabricaram remédio. Só o tempo, só o tempo. E este só vem quando bem quer.
Mas outra coisa também é fato. Quando eu termino com alguém ou terminam comigo, voilà, depois de tudo, sigo em frente, nunca volto. Sem essa de mais uma chance. Por quê? Ora, não deu certo na primeira, por que daria na segunda? Não, sem mais.
Contrariamente, a mulher de Ló – já cansei de pesquisar o nome dessa mulher – nunca olho para trás e sigo o impassível horizonte.
A psicologia tá ai pra esclarecer – ou confundir – as coisas, né? mas, ainda aqui pensando com os meus botões, acho que essa minha resistência se deve a uma paixão que tive quando muito jovem. Foi num tempo em dei umas de desaprender a brincar ou os brinquedos perderam o total interesse por mim, sei não. Comecei a encrencar com algumas espinhas invisíveis, com os meus cabelos que não assentavam num dos lados do pescoço. Passei também a achar os meus dedos mais finos, os pés muito grandes, e principalmente, a minha voz estranha. As pessoas falavam comigo e eu ouvia tudo muito longe como um sopro numa concha do mar. Perdi a minha forma de estar no mundo. O tempo do que eu era. Que coisa mais esquisita. E veio então, a deliciosa estranheza do primeiro beijo: uma mescla de querer e repulsa, de medo e coragem. Se for aquela a pessoa que queremos com afinco, o primeiro beijo segue o seu tempo e jeito como numa instintiva coreografia da natureza. O beijo já nasce beijo.
Disso em diante, acho, meço tudo com essa régua. Estou sempre a buscar essa sensação, assim, como até hoje, busco o gosto de um sorvete que provei pela primeira vez numa tarde qualquer. E nunca é, nunca é. Busco o primeiro encontro de mãos trêmulas e o coração trepidante, numa esquina qualquer daqueles primeiros anos de descobertas trepidantes. E nunca é, nunca é. A força que empreendemos para gostar de uma pessoa é a mesma para esquecê-la?
Longe de achar uma vantagem – e como poderia? - essa coisa de seguir em frente sem olhar para trás. De achar que o que acabou, acabou de vez, mesmo com alguém sofrendo às nossas costas ou o nosso coração pesando feito uma peça de chumbo. Esta é apenas a minha forma de ser e estar, assim como o castor faz as suas barragens, a cobra rasteja, o rio corre... E assim, com essa tira solta na sandália da minha vidinha, sigo com a minha régua no bolso e sem olhar para trás. Nunca. Sigo buscando o gosto daquele beijo, como assim anseio o sabor daquele sorvete que provei numa tarde qualquer, quando eu sentia, em meus dedos ainda em formação, a pele lisa da felicidade. Sim. Vou em frente a buscar esse tudo, mesmo sabendo, é certo, que nunca é, nunca é nem nunca será.

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