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o fino fio do amor

Dizem que uma pessoa tem pelo menos seis sonhos durante uma noite, e que se ficássemos sem sonhar, morreríamos, como assim acontece se permanecermos muitos dias sem dormir. O fato é que há tempos não me lembrava nada dos meus sonhos, e os livros explicam tudo, menos o porquê de uma pessoa permanecer anos a fio sem lembrar-se do que sonhou. Li toda a obra d'Os Sonhos de Freud, e nada encontrei sobre essa parte. Bom, isso pra dizer que por esses dias sonhei e lembrei-me de tudo no dia seguinte como alguém que assiste a um filme no dia anterior e pela manhã, no café, conta para alguém. Sonhei que quando as pessoas morriam todas as suas coisas morriam logo em seguida. Desapareciam aos poucos como assim desaparecem as formas nas nuvens.
Uma velhinha morreu e logo sumiu a sua cadeira de balanço, suas roupas nos varais, as velhas panelas de fundo preto, seu vira-lata, seu cachimbo e por fim, sua casa com tudo dentro. Os parentes agarravam-se às coisas feito náufragos nos restos de um velho navio. No fim, ficavam ali, a contorcer-se em lágrimas e a tentar segurar o nada presente em suas mãos vazias.
Nada permanecia, nem mesmo as lembranças de sua existência na mente dos seus entes queridos. Era a morte completa. Um apagar-se da vida. Depois, só o silêncio, o vazio de tudo. Então, com o marchar dos dias, a vida tomava o seu ritmo de sempre como se nada tivesse acontecido.
Me deparei, então com um rio pela metade. Era mais ou menos como aqueles desenhos nos nossos antigos livros de geografia, da escola. Um rio literalmente pela metade, ali, firme. No que ele logo começou a diminuir como se vazasse todo por um imenso ralo levando tudo em seu encalço: peixes, plantas, terra, seixos. Logo me vi num deserto. Um fim do mundo à minha volta. Disseram então, que por ali havia morrido um pescador. Todos os dias, afirmavam, ele postava-se em seu silêncio e cochilo de pescador a espreitar a distração dos peixes. Foi-se o pescador e depois o rio com tudo dentro.
E coisas sumiram a torto e a direito num esvaziar-se de mundo. Apavorei-me, então, com a possibilidade de que morresse gente demais e assim, levasse grande parte do mundo e eu terminasse sozinho, ali, pois não tinha a intenção de morrer tão cedo. Mas no sonho me disseram que, na vida, pessoas nascem mais do que morrem, e quando elas vêm ao mundo trazem coisas consigo. Quando nós nascemos, num havia ali um berço, um móbile, brinquedos, lençóis quentinhos, nossos pais, e tudo mais? perguntaram-me - pois, então - no que concordei.
Quando acordei fui logo procurar as coisas do meu pai que guardo a sete chaves. Coisas às quais sou muito apegado como se ainda o segurasse pela roupa na intenção de impedi-lo de ir-se embora novamente. E lá estava o seu velho relógio que, de quando em quando, troco a bateria, os seus velhos óculos com durex em uma das hastes pelos constantes tira-e-põe para enxergar a vida: esta selva oscura. Oh, deus, e lá estava - e para onde poderia ter-se ido? - a sua carteira de trabalho com a foto dele mais novo do que eu. Um dia, ele me olhou mais velho do que eu, de cima, agora eu o olho de cima, mais velho que ele. Pronto, pai, pelo menos nisso estamos quites.
No fim de tudo, ali, sentado no chão e arrumando as tralhas do meu velho como se fossem as relíquias da arca da aliança, o sangue do cálice sagrado - e não são? -. Fiquei feliz que, dessa vez, pude me lembrar do meu sonho - já estava esquecendo como se sonha - mas fiquei ainda mais feliz por ter sido um sonho. Era bom saber que as coisas dos falecidos não desaparecem após a morte. Nada melhor do que poder sentir em nossas mãos trêmulas o fino fio do amor que o esquecimento, em seu curso insano, vai levando sem pena para o fundo. Por isso, há momentos, sério, em que não existe nada melhor do que a nossa mais dura realidade.

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