Não há mais aquelas orgias verbais quando o mais importante não era o que tínhamos a dizer um ao outro, mas sim, olhar nos olhos, ouvir a voz, tocar-se vez em quando como a se certificar de que o outro é real e que estávamos mesmo ali num deleite enquanto o mundo se desfazia lá fora.
Há pó nos móveis. Pó que tanto nos incomodava e que agora nos soterra, a nós e a nossa vida a dois que, é o que parece, logo será a um. Cada qual no seu cada caos. E depois, depois, e logo não saberei mais.
Já não há mais velas nos nossos jantares que ainda persistem sei lá por quê. Logo não haverá mais pratos, talheres, mesa, cadeiras. Logo não estaremos aqui, a tentar superar este muro imenso de silêncio que, sorrateiramente, foi crescendo entre nós e que agora, nos impede de ver um ao outro.
Você que sussurrava em minha orelha me trazendo imagens de ventos movendo os trigos nos campos, agora grita. Sim, sei, gritamos quando estamos muito longe um do outro. Como se nos falássemos das margens opostas de um rio. O pior longe é este tão perto de ti, este que te toco e não te toco, este que te vejo e não te vejo, este que estamos e não estamos. Tenho vontade, confesso, de dizer, não grite, não grite, estou aqui, a um palmo de ti, no meio desse deserto de nós. Mas não digo. Não o faço, acredito, por que não tenho a certeza de que eu esteja mesmo aqui. Estou? Diga-me. O que parece é que saí de mim e agora não sei voltar.
Mas você não só grita – vai ver grito também. – você chora. Eu choro. Sei bem que são minhas estas lágrimas no teu rosto. Mas por que choramos? Alguém poderia nos perguntar. Não saberíamos o que dizer. Ora, quando nos apaixonamos? por que vivemos juntos todo este tempo? E principalmente, quando deixamos de nos gostar? Tudo apenas acontece como uma chuva que nos pega no caminho. Foi sim a chuva, como no poema de Stevenson.
Há quadros tortos – quadros tortos que tanto nos inquietavam e que permanecem ali, tortos feito objetos oscilantes de um navio prestes a sucumbir -. Logo não existirão mais os quadros tortos, as paredes, a casa, as ruas. Logo não estaremos aqui, a procurar as boias, os botes desse navio, para escapar desse oceano que, silenciosamente, foi surgindo entre nós e que agora afunda a tudo e a todos
A noite chega feito uma chaga e, ouvindo os meus passos vou para a cama que não mais nos cabe. Pássaros que não mais encontram a forma do velho ninho. Tenho medo de que me toque e posso ver esse medo refletido em teus olhos assim, como vejo a tua toca de banho refletida no nosso espelho que logo não será nosso. Aquela toca, a tolha, o escovão, o secador, tudo ali dentro do espelho numa existência sem existir me leva a perguntar-me: somos aqueles no espelho ou estes cá fora?
Um fim nem sempre é um fim. Quer dizer, cada término tem seu jeito particular de ser. É como um pugilista que tem um treino específico para cada tipo de adversário. Cada fim, modifica de um determinado jeito o nosso destino, assim como o oleiro deixa os calos das mãos no barro que trabalha. E enquanto dobro estas roupas para colocar numa mala cheirando a naftalina, meu destino – nosso – como num taxímetro, já começou a contar. Posso ouvir os cliques cadenciados. A vida se repete, sim, mas nunca do mesmo jeito.
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