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tudo é motivo

A saudade se vale de tudo: um velho amigo que havíamos dado como morto e que nos liga numa noite de sábado, uma foto que encontramos na gaveta, ali, sob caixas de remédios vazias, canetas sem tinta, botões perdidos de suas casas, pilhas estouradas, balas melecadas e já sem gosto, clipes, tampas, cartões de natais e aniversários, entre outras tantas coisas. Eis a foto, e, com ela entre os dedos nos perguntamos: quem será este? perguntamos pois o tempo dá de nos pregar peças. Quer dizer, no curso da nossa vida, tornamo-nos mais parecidos com os outros membros da família do que com nós mesmos. Serão meus ou deles estes olhos tristes? e estas mãos de veias saltadas com pintinhas feito cagalhões de moscas? e estas rugas?
A saudade é rasteira, entra pelas frestas feito o vento pelas venezianas. Alimenta-se daqueles que dela se alimentam: uma música, um cheiro, uma textura, uma voz, tudo isso, pode nos mergulhar num mar sinestésico. E essa viagem é uma elevação: encontramos todos ali reunidos numa varanda do tempo a falar da vida. Aquele amiguinho que sentava ao meu lado, na escola, a menina de óculos de fundo de garrafa por quem eu tinha uma queda. Posso ouvir o som da cadeira de balanço da minha avó, o cheiro do cachimbo, os óculos com durex, do meu avô, as gotas da chuva estalando na minha janela numa madrugada qualquer. Ah, os latidos do Rex, o nosso cãozinho que foi atropelado pelo carro da Coca-Cola e que aos poucos foi morrendo com aqueles olhinhos de alfinetes. A saudade é essa confraternização e que você só pode ir até um certo ponto.Você está na festa, pode transitar por eles, mas não pode trocar a música, completar uma frase de alguém, acenar para outro. A saudade, assim como os sonhos, tem seus próprios roteiros, cenários.
A saudade se vale de quase nada: uma folha seca dentro de um livro, um bilhete, um botton, uma forma nas nuvens. Por esses dias me deparei com minha bicicleta pendurada na garagem e até duvidei de que fosse minha, assim como duvidamos que usamos uma determinada roupa na adolescência já longe. Ora, quanto tempo estava ali sozinha em sua solidão de graxa e pneus murchos? Abracei-a, então, como abraçava uma tia querida que de tempos em tempos, cheirando a sabão e cheia de presentinhos, aparecia lá em casa com seu sorriso cheio de dentes suspeitos. E aquele metalzinho brilhando lá atrás? .
A saudade é danada. Passa pela fechadura, desce pelo telhado. Sacia-se daqueles que se saciam dela. Uma frase, um livro, uma letra, uma rua, um velho boné no fundo de uma velha mala, todas essas coisas, podem nos levar a um lugar fabuloso, de passagens secretas. E ao cruzar uma dessas portas abrem-se mundos e mais mundos: ali estão os meus sapatos que usei no meu batizado, as meias com pompons, a minha mochila com adesivos, meu uniforme da escola, desbotado, uma mecha dela dentro de uma caixa de fósforo, o pinguim da geladeira que nos olhava de cima como a rir-se das nossas comédias diárias, como que deliciando-se com o meu pai me arrastando pela orelha. Ah, os reco-reco dos patos em suas pressas e caganças, lá no quintal. As graviolas caindo, vez em quando em cima de um deles. A saudade é essa mistura de coisas feito uma grande caixa de brinquedos e que você só pode observar tudo meio que de longe, feito uma pessoa que não participa de um carteado, mas que pode ver as cartas de todos os jogadores. Mas palpite não pode dar. Até pode, mas quem vai te ouvir? A saudade é do avesso e só escuta com o ouvido de dentro, assim, como meu tio só ouvia com o esquerdo.
Ás vezes me perguntava: como será a saudade da minha mãe? do meu pai?dos meus irmãos? Pergunto isso porque acredito que a saudade funciona da mesma forma que o poema da Cecília: “o vento é o mesmo mas sua resposta é diferente em cada folha”. Sim, a saudade gosta de carregar seu próprio alaúde e arpeja acordes numa vibração específica para cada coração. Por esses dias também dei de me perguntar onde meteram a pata de coelho da chave da velha kombi. Deve estar dentro da velha 007 do meu pai, e que decidi, depois que ele partiu numa kombi branca e celeste, nunca abri-la para manter sempre o mistério ali dentro a sete chaves. Deve estar lá no sono silencioso das coisas esquecidas e que a saudade vez em quando, sacoleja, assim, como fazia minha irmã mais velha quando me despertava logo cedo para a escola. E eu em gemidos de ais e huns. Querendo dormir todo o resto do dia, da minha vida.
A saudade é arteira, danada, manhosa, ardil. Ás vezes, vem em choro doce ou num sorriso doído, mas sempre bom. Sodade - assim dizia um velho vizinho - é uma viagem única e intransferível. Quando voltamos desse enlevo há sempre um perfume diferente em nossa roupa, a sensação de um aperto de mão que acabamos de dar, o calor de lábios no nosso rosto, braços que ainda nos envolvem em abraços apertados. Se calhar, em um dos nossos bolsos, há uma carta, um bilhete, quem sabe até uma pata de coelho. Voltamos assobiando uma canção que pensávamos tê-la esquecido. E cantamos com tanta alegria. A verdadeira alegria que só vivenciamos quando sentimos saudade. De alguém, de alguma coisa, de nós, da vida, de tudo. Até do que não existe. Sim. Porque tudo é motivo para saudade. Este imenso deleite que é quando, enfim, nos entregamos a nós mesmos.

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