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um pequeno espaço

Ocupo um pequeno espaço no tempo. Sou a medida dos meus sonhos. Seguro-os como, com cordões, prendia as minhas pipas. Sonhamos, e por mais que sejam sonhos, os controlamos.
Vivo no pequeno quadrado que é a vida que me cabe. Sou como o estudante correndo no recreio antes da sineta. Correndo de si mesmo. E assim vai correr toda a vida.
os sonhos, assim, como os estilingues, perdem a elasticidade. Sempre digo que os sonhos envelhecem, sim. Se uma tulipa envelhece, se uma fruta apodrece por que não os sonhos? Dizer que os sonhos não envelhecem é como afirmar que a minha vó encontra-se na calçada a balançar-se em sua cadeira e a fumar o seu cachimbo. Apegar-se aos sonhos pálidos é como os casais que passam tempo demais juntos e já não sabem mais qual o grau de parentesco que os enlaça.
Ocupo um pequeno espaço no tempo e este espaço não é meu. Nem os mortos são donos do chão onde fingem dormir. Então, vou pisando feito um dançarino que ensaia um espetáculo que não vai acontecer. Sou tão ingênuo quanto o meu gato que mija em todo e qualquer lugar simplesmente porque chegou um gatinho novo na casa.
Pouca coisa me interessa agora. A poesia sim, mas esta é uma ponte muito frágil. Aquela ponte que geralmente é bom que voltemos do meio do caminho. O que me anima, um pouco mais que a poesia, é o sexo esporádico, aquele que começa num olhar oblíquo numa loja de conviniência e termina numa rua sem saída, ou num hotel barato. Um sexo urgente na paz de uma lua de colheita. Um sexo desesperançado feito algumas músicas do John Lennon.
Gosto das noites frias, do cigarro queimando o peito feito uma rejeição de pai, uma rebeldia de filho, um táxi que não parou. O frio me leva a fumar e o cigarro me dá vontade de ir embora para um lugar inventado, sem coordenadas, onde não há a geografia. E sem as falas dos hipócritas nem a artimanha melíflua das trapaças dos aproveitadores de plantão. Para manter isso bem longe, gosto de carregar algumas lembranças na minha mente atordoada assim como guardo algumas fotos nos meus bolsos furados.
Não gosto de ser notado, mas gosto, confesso, quando alguém, através de mim, fala com um outro e ouço uma voz longe como o apito de um navio que vai naufragar, como as luzes de uma cidade que vai ser soterrada, como alguém que partiu sem se despedir, ou como outro que morreu sem deixar nada escrito. Gosto de pensar numa vida que dura o tempo de uma música. Uma música de posto de estrada, solitária como o gosto do nosso próprio beijo no espelho. Apesar de tudo, gosto de pensar que ainda vale a pena esta moeda furada da existência. Mas sei que é apenas o meu gostar. Enquanto isso, ocupo este pequeno espaço que não é meu e vou ensaiando uma peça - a minha - que nunca sairá do primeiro ato.

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