gosto de ver o mundo
e de estar
no mundo
de ver, da minha janela, a chuva
em sua litania
é como molhar-se de rimas
gosto de olhar as portas das lojas
feito pestanas decaídas
a cochilarem domingos
sentir o cheiro da graxa dos ônibus
o suor dos homens
do pão na chapa
este que é o cheiro dos finais das tardes
gosto de ver o passo seguro das mulheres
a desenhar as ruas
gosto de olhar o mundo
e de estar
no mundo
eu, da minha perplexidade,
a olhar tudo funcionando
nas águas turvas do mundo
e gosto
é como acreditar
acontece
sempre
quando olho
pela minha janela
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