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sabe aqueles dias?

Quando a saudade vem, num movimento lento e calculado como uma águia pousando no ninho onde é rainha, não há abraços, beijos, uma palavra sequer que nos salve desse momento. Até porque a saudade é um terreno movediço no qual deixamo-nos afundar. Não há braços nem corda forte o suficiente que nos arraste para fora. Você afunda com o coração feito um homem numa profunda oração. Porque a saudade é a dor impossível coberta por uma película de possível. Mas no fim vem a constatação de que erramos de novo, perdemos de novo, partimos de novo, e por fim, morremos de novo. Saudade é essa falácia na qual sempre caímos sem reclamar. Quando muito lágrimas que despencam no espanto do dia ou um corpo que se curva no silêncio da noite.
Quando a saudade dobra os seus sinos não há conselhos, caminhada ao ar livre, a leitura de um bom livro, elogios aos céus ou impropérios aos anjos que desafoguem o peito. Até porque a saudade é este inflar-se de nada que nos domina por completo.
Não há mãos nem pernas que te segurem neste doce despenhadeiro. De qualquer forma você cai porque é queda como se voo. Porque a saudade é essa volta corajosa de pés delicados sobre cacos de vidro com um colo de mãe no final da jornada. Mas no fim, constatamos, que tudo se foi de novo, que as estações estão vazias de novo, que a casa foi demolida de novo, que não há mãe nem colo, nada, apenas nós.
Sob essa chuva fina, que nos encharca, só existe um caminho: vivenciar a saudade com toda intensidade até que se vá e nos deixe mais uma vez à margem de nós mesmos. Mais frágil? Mais forte? Não sei. Mas vivo e seguindo como faz a maioria dos mortais. Outras virão, como também virá o sol.
ao som de Homeward Bound - Simon & Garfunkel

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