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sou um leitor de crônicas

Sou um leitor de crônicas. Sim, um assíduo leitor desse gênero que muitos vaticinam o fim. Sim, desse gênero delicioso que Lobo Antunes diz ser como piscina para crianças. Ou seja, ninguém morre afogado nelas. Antunes apesar de diminuir a crônica - sei que é onda - escreveu cinco livros do gênero, e que eu os devorei feito um homem há mil dias sem comer.
A coisa é o seguinte. Sempre um domingo por mês, tenho um compromisso comigo mesmo. Quando chego ao meu boteco predileto, já estou lá a minha espera. Encontro-me de bermudão rindo pra mim mesmo. Até me comovo com o meu riso de menino sob o bigode branco e fico encabulado com meu próprio olhar sobre mim mesmo. Ah, os lábios estalam pensando na cerva artesanal que só o meu boteco tem, no atendimento de primeira que só o meu boteco tem. Lá, eles puxam a cadeira pra mim, porque nestes domingos, sou rei. Até porque eles me chamam de Rey. Ah, e eles não me perguntam o que vou querer, não. Apenas aboleto-me e enquanto olho o azul lá fora e cá dentro, em tudo, as coisas vão chegando como chegam as horas. Minha mesa fica arrumadinha como se ali eu fosse viver para sempre. No meu boteco preferido não há pessoas tristes. Estão sempre a sorrir e com fé no futuro. Riem como moedinhas caindo. Vão ao banheiro feito aves a ameaçar voo e voltam num gingado muito particular. Coisas do meu boteco.
Nestes domingos dos deuses, veja, só saio com um livro de crônicas. Aliás, é por isso que vou lá: porque adquiri um novo livro de crônicas. Sim, desse gênero que já levou pancada até de vira-lata. Gênero desprezado por intelectuais, leitores, e por assaltantes. Lembro-me que um dia estava saindo da livraria Martins, na Paulista onde acabara de comprar um livro de crônicas. Era para um dos meus domingos especiais. Estava tão feliz que falava sozinho. Falo sozinho quando estou feliz, nunca quando estou triste. Então, um assaltante me parou. Assaltante nunca diz “Isto é um assalto”. Não, isso é só nos filmes. Eles te param e te levam as coisas. Enfim, levaram meu celular, minha carteira, meu relógio, minha caneta montblanc, minha dignidade, mas não levaram o meu tão querido livro de crônicas.
Gosto mesmo é dos cronistas de 50/60, a época de ouro da crônica: Rubem Braga, Rachel de Queiroz, Lygia Fagundes Telles, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Nelson Rodrigues, Otto Lara Resende, Ledo Ivo, José Carlos de Oliveira, Antônio Maria, Antônio Torres, Ivan Lessa, e ainda muitos outros. Cada um na sua e todos por nós. Crônicas inteligentes e deliciosas. Havia um humor crítico sobre as coisas da vida pelo qual somos tomados de indignação e riso. Uma lauda de uma crônica inteligente já me disse muito mais do que muitos calhamaços pretensiosos.
Bom, leio uma, duas crônicas e olho lá o azul, o vai e vem dos carros, ouço o barulho dos talheres, pratos, copos, sinto o cheiro de algo bom vindo lá da cozinha. Vejo o dono do meu boteco preferido, que também curte muito uma crônica, pra lá e pra cá no território que domina bem. Depois disso, dou alguns bons goles na minha cerva artesanal do coração e volto ao livro, então, leio mais uma, duas, três crônicas e vou. Sinto-me mesmo tomando banho numa piscina para crianças e finjo mesmo mergulhos profundos. Finjo que volto sem ar. E é tão bom, e são tão bonitos estes domingos. Oxi, e cá estou de novo a falar sozinho. São as crônicas, lindas crônicas. Algumas delas eu já li mais de dez vezes. Sou mesmo um leitor de crônicas.

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