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um olhar

Um olhar, apenas um olhar e tudo toma sentido. Ele nunca vai saber - até porque não viveu para isso -, que com o seu olhar injetou a vida. E vida é o pequeno e intenso momento que nos cabe.
No emprego, eu estava com a espada de Dâmocles sobre minha cabeça, e sofrendo como o diabo pelo término de mais um casamento - por que as pessoas insistem nisso? - quando fui visitar um amigo na uti. Fiquei lá apenas uma noite, em meio a todos os barulhinhos, o entra e sai incansável dos enfermeiros, o abre e fecha de portas, lá, aqui, acolá.
Uma poltrona, por mais confortável que seja, numa uti, nunca é o que é. Parecia que eu estava sobre uma peça de mármore, uma cama de faquir, o batente do portal do inferno. Enquanto mais procurava um jeito, mas desajeitada a coisa ficava. Quando começava a achar que via a luz divina, um pequeno fio de sono, algo disparava feito as famosas mesagens do filme 007. De olhos arregalados, segurando-me nos braços da cadeira, achava mesmo que algo iria explodir a qualquer momento.
No dia seguinte, moído, olhos inchados - um pouco pela noite infernal e um pouco pelo minha dor de cotovelo do fim do meu relacionamento - me despedi do meu amigo. Eu estava triste por ele, mas ao mesmo tempo, não posso negar, aliviado por sair daquele martírio. Meu amigo só sairia daquela sala bizarra para trilhar a via-única.
Quando saí da sala, procurei olhar para o piso branco no intuito de não ver nada ao meu lado. Mas não houve jeito. Meu olhos deram de cara com os olhos de um senhor, que, era o que parecia, morria em sua dignidade. Poderia ter me olhado como uma vítima, como alguém que se apaga aos poucos sem muito o que se fazer. Mas não, me olhou com um jeito terno como se dissesse "viva, viva com toda a sua intensidade. Viva o que você tem direito, sem culpas, remorsos, menos ainda orgulho. Apenas viva". Foi isso que vi naqueles olhos-calhamaço.
Hoje, sempre que penso no meu amigo, me vem o olhar desse senhor que nunca soube o nome, o endereço, a vida. E o que isso mudaria? Apenas lembro dos olhos dele feito um farol sobre um navio perdido. Então, isso me leva a Sêneca. Não importa quanto tempo temos, do nascimento à finitude, mas sim, o que fazemos com esse tempo. Qual a qualidade desse percurso. Por isso, sigo os olhos: vivo, vivo intensamente, vivo o que tenho direito. Mordo a fruta como se pela última vez, deixo a água da chuva cair no meu rosto como se fosse a unica, durmo na minha cama confortável, mesmo, como se renascesse. Apenas e somente isso: vivo intensamente.

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