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apenas escreva

Quando não tiver nada para escrever, escreva sobre o que não tem para escrever. Pode ser sobre o seu olhar caído num dos cantos da casa, a cortina batendo, vez ou outra com o vento, o grito, lá na rua, de alguém que você nunca irá conhecer. Escreva sobre algo que a solitária vizinha do apartamento de cima deixou cair para afugentar a solidão que já gruda em seus dias e noites assim como a gordura nas paredes da cozinha.
Quando não tiver nada sobre o que escrever, apenas escreva, assim como os ponteiros marcam as horas sem saber da serventia desses movimentos, e mesmo assim, no final de cada giro, já se põem a rodar e a rodar, e nessa cantilena, irão até que acabem as pilhas. Ora, os escritores também não sabem para que escrevem, e em seus ofícios diários, como se ponteiros num rodar contínuo, terminam de escrever e logo se põem a escrever novamente, e dessa forma, irão até que deem o último suspiro.
Escreva sobre a inquietação da caneta na sua mão inquieta, o seu pé num tique nervoso sob a escrivaninha, a paz do gato na janela. Paz que um escritor desconhece quando não tem nada sobre o que escrever. Apesar de que um escritor prefere o ardil das frases truncadas à paz das janelas. Ele passa muito bem sem ela, assim como um gato vive muito bem sem o ardil das frases truncadas.
Quando não tiver nada para escrever, observe as coisas mais simples. Há sempre grandes mistérios na aparente simplicidade das coisas. Num único pássaro há o voo de tantos outros pássaros, assim como num único homem que atravessa a rua há o caminhar de tantos outros homens. Movimentos que foram se formando na sutileza dos milênios. Se calhar, todas as coisas são simples e a complexidade esteja apenas naquele que escreve sobre elas.
Quando não tiver nada para escrever, escreva que no fim do dia o ofício da escrita te dá dor nas costas, inchaço nos pés, além de uma sensação de inutilidade, somado a isso algumas garrafas de café. Mas pode também escrever que, apesar disso tudo, há na sua mão, fechada feito um coração que parou, três grandes frases, assim, como um garimpeiro, todo o dia curvado sobre si mesmo, no sol inclemente, no fim da labuta, encontra três pequenas pepitas de ouro que lhe asseguram o pão.
Se você não tem nada sobre o que escrever, saiba desde já que as palavras têm vida própria e gostam de se esconder feito os arredios caranguejos no manguezal. Fazem isso, principalmente, quando sabem que há um escritor à cata delas. E se o escritor não vai buscá-las, com o braço atolado na lama, e as traz para fora, feito os catadores de caranguejo no mangue, elas nunca serão escritas e o escritor permanecerá sem nada para escrever.
Escrever, de alguma forma, é um pouco tudo isso e muito mais. É como traçar estradas. E estradas, sabemos bem, não nascem prontas. E se com tudo isso, ainda não estiver satisfeito, pense, o universo foi criado do nada. Não havia matéria, espaço nem tempo, só havia o nada. Pelo menos é o que afirmam alguns cientistas. Para estes, o nada pode não significar ausência total de tudo. E quer saber? Boto a maior fé nessa afirmação, pois, todos os dias é exatamente isso que faço: crio universos do nada: escrevo. Principalmente, quando não tenho nada sobre o que escrever.

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