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às lágrimas

Já é a quarta biografia de Rimbaud que leio. De forma diferente, tudo se repete: a mãe forte, fria e possessiva, o sumiço do pai quando Rimbaud era ainda o pequeno Jean-Nicolas, as dificuldades financeiras, as caminhadas de mãos dadas com o irmão Frédéric, os inúmeros prêmios na escola, ainda no ensino médio, as leituras, as primeiras publicações dos incipientes escritos em revistas importantes, as conversas com professores admiráveis e amigos influentes, a vontade desenfreada de conhecer o mundo, a carta que Rimbaud escreveu a Théodore Banville e que o poeta parnasiano nunca respondeu, o convite de Verlaine:

“Venha grande alma, você está sendo convocado, você está sendo aguardado”.

O romance louco com Verlaine, o inferno que a vida do autor de Festas Galantes tornou-se, as dificuldades financeiras novamente com a relação tumultuada. O assalto, as prisões, o término dramático do romance com Verlaine – este, preso por quase dois anos por tentar matar Rimbaud – a escrita dos dois grandes livros do bardo de Charleville, a publicação que não foi paga e que só muitos anos depois da morte do poeta é que foi encontrada, intacta. O abandono de vez da poesia, a partida para o Oriente, para a África, o mercado de armas - de escravos também? – as inúmeras línguas que Rimbaud aprendeu, as incansáveis peregrinações pelos desertos, a quantia em dinheiro guardada, sabe-se lá para quê, os servos, os primeiros sintomas da doença, as dores atrozes, a morfina, os seus empregados carregando-o, muito doente, numa padiola para embarcá-lo no Amazone rumo a Marselha, a internação no hospital da Conception, a amputação da perna direita, as dores atrozes após a cirurgia, o coto que não lhe dava paz, a aflição da mãe, envelhecida, porém, ainda forte. O apego à irmã Isabelle, a rápida recuperação, as muletas, as lembranças de quando ele e Frédéric atiravam pedras nos aleijados de Charleville, o poeta esquálido, envelhecido, aos prantos, abraçado a sua querida irmã Isabelle e lhe sussurrando a famosa frase:

“você caminhará sob o sol e eu irei para debaixo da terra”.

Ah, os delírios, as dores ainda, as citações, em febre, de trechos de Une saison un enfer, muitas coisas ainda e logo depois, a morte. Sim, a morte, mas não o fim, não o fim exatamente. Rimbaud é idolatrado, vira lenda, sim, sua história vai além dele. É adorado por poetas, músicos, andarilhos do mundo todo. Torna-se, ao lado de Baudelaire – de quem era leitor assíduo – o pai da poesia moderna. É cantado, poetizado, homenageado, reverenciado por inúmeras gerações, até hoje. É o único poeta que resvala na unanimidade. Quem gosta de Rimbaud? Poderíamos perguntar numa sala cheia de poetas. Talvez um ou outro dissesse que não gosta, outros poucos ali, contor-se-iam em silêncios e tatibitates, mas a maioria, é certo, já estaria de pé e gritando:

"eu, eu, eu, eu...

Um menino de dezesseis anos, um aluno brilhante, de olhos azuis fulminantes, muda a história da poesia da Europa, do mundo, até hoje.
Tudo isso, ufa, num fôlego só. Tudo da mesma forma e diferente. Porque é uma vida, não uma invenção, e é contada por vários biógrafos que não se cansam de chafurdar a vida desse menino do interior da França que sabe-se lá por que – quem souber levanta o dedo – escreveu livros extraordinários e depois sumiu no mundo para trabalhar no ramo das armas, e dizem, no de escravos também. Por quê? por quê? por quê? Mas só há silêncio. Um dia, dizem, um homem se encontrou com Rimbaud nos cus de Judas e lhe perguntou se ele era o mesmo Rimbaud do qual tanto se falava na França. No que ele respondeu: “coincidências”, e depois mudou o rumo da prosa e não voltou mais a falar nisso, nunca mais.
Mas se a história se repete, mesmo em estilos diferentes, por que eu volto a ler a biografia de Rimbaud? Pergunto-me. Não sei. Só sei que me comovo às lágrimas. É tudo tão intenso e tão triste e tão rápido e ao mesmo tempo tão iluminado. Que vida Rimbaud teria levado se tivesse seguido com a poesia? Teria se repetido? Se desgastado? Se já era soberbo, arrogante – como diziam -, no que teria se tornado? Como poeta e leitor de Rimbaud, posso dizer que ele não teria sido rendido por nenhum outro Rimbaud ou algo próximo disso. Quem? Qual? Onde? de que jeito? Quem souber levante o dedo. Na França, parece que Rimbaud disse tudo de um jeito que não sobrou mais coisa alguma para ser dita.
Sim, me comovo porque lembro-me da sua gana de mudar o rumo da poesia que se fazia à época – e mudou – depois as fugas – fugia de quê, exatamente? – o abandono, longe de tudo e de todos – quanta saudade não deve ter sentido, quanta insegurança, não? quanta sensação de fracasso, dúvidas, quanta solidão. Depois a triste volta para a casa, a agonia dos últimos dias, o fim do menino de olhos azuis – segundo Ferreira Gullar: o olhar azul que mente -, e então, a glória. Glória que certamente, ele viraria o rosto e diria não, assim como disse não para a sua poesia. E a pergunta permanece, vibra, ecoa:” por quê? Por quê? Por quê? Não sabemos, não sabemos. Mas com certeza será motivo para outras e outras tantas biografias sobre o bardo de Charleville. E é certo, pode apostar, que eu as lerei, todas, e comovido, muito comovido, chorarei de novo e de novo, e sempre às lágrimas, sempre às lágrimas.

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