Pular para o conteúdo principal

onde estão todos?

Quantos já fomos no curso da nossa vida? A cada ano, fica mais difícil saber. Este homem perplexo é aquele menino travesso? Mas onde se esconderam todos os outros entre? Para onde foram? Estão em algum multiverso ou sob as tantas velhas fotos, cartas e bilhetes nas gavetas que de tão rechonchudas já não querem mais abrir? Será? Será que são esses eus tantos que me roubam os bonés, uma meia dos meus sapatos. E por que cargas d’água nunca levam as duas? Será que são estes mesmos que escondem a chave do carro, atrasam os relógios ou fazem chover quando esquecemos o guarda-chuva?
Juro que eu tinha uma camisa azul. E que gostava deveras dela. Mas a mulher que lava a minha roupa disse-me que há muito a camisa já não era azul, e pela cor já indefinida eu havia-lhe pedido para se livrar dela. Pode ser, mas ainda penso que foi um desses meus tantos elos perdidos que me levou a tal camisa enquanto eu cochilava no sofá, com um livro sobre a barriga.
Será que esses tantos eus que fui, vez ou outra se misturam e é por isso que em alguns momentos damos de fazer algumas coisas que não condizem mais com o que somos? Sei lá. Por exemplo, quando eu era menino, dava umas de roubar cigarros dos bolsos do tio e ia fumar, perdido entre fumaças e tosses, lá para os fundos do quintal, nas bananeiras. Ficava espantando a fumaça feito um larápio a espanar os golpes. E depois, já adulto, vez em quando tenho ganas de sentar-me no chão a tocar índios e caubóis. Pode ser.
Não os conheço, mas confesso, sei lá por que, tenho saudades deles, quer dizer, de mim, né? Estão mesmo todos por aí e deve ser por isso que ouço, vez ou outra, alguém me chamar com a intimidade que só os mais próximos têm de mim. Não com aqueles apelidos que os colegas nos põem em tempos de escola, sabe? E esses apelidos, sabemos, têm mais força que a espada Excalibur: depois de fincados na pedra da nossa vidinha, nem o rei Arthur tira. Mas não são esses apelidos, que ora ou outra, escuto às minhas costas quando estou no banco, nos correios ou supermercado. Não, são outros, já disse. E eles soam longe como uma voz vazada de outro tempo. O que escuto são os nomes com os quais minha vó, carinhosamente me chamava. Coisa que ela inventava na hora. Já minha mãe tinha várias denominações para mim, e todas passíveis do seu humor. Quando me chamava para almoçar era um, para que eu não me atrasasse para a escola, era outro. São estes nomes e que escuto vindos de longe e que me despertam no meio da noite ou me fazem olhar para os lados, para trás, para cima.
Sou mesmo quantos desde o nascimento até este homem atônito? Quando, como e por que se desfez essa fila de mim, de eus, de nós? Para onde foram? O que comem? Onde moram? Não sei, mas estão por aí, é certo. Quem sabe a me procurar como eu os procuro, talvez a me chamar como eu os chamo, ou seguindo-me, porque a vida torna-se mais leve quando em companhia.
Mas vou ficar de olho. Vou vigiar as meias nos meus sapatos, os relógios. Vou prestar bastante atenção para onde vão as tampas das cervejas quando eu as abro e nunca as encontro. Com certeza, é o que acho, todos os eus, festivos, devem estar reunidos em algum lugar, à volta de uma grande mesa. Uns usando minhas meias, meus bonés, outros brincando com as tampinhas das cervejas, e ainda outro, o mais vaidoso, vestido com minha camisa azul. Todos a acenarem para mim. Com um sorriso que não sei afirmar se é de alegria ou de sarcasmo. Vai saber.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

obrigado, António Lobo Antunes!

Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...

a velha casa II

O jardim onde, nas brincadeiras, eu me escondia detrás das plantas espinhentas. Nas minhas primeiras incursões etílicas da juventude, eu tinha de pular o muro para que o portão, com seu incurável canto em falsete, não me denunciasse e meu pai se levantasse em seu arrastado de sono e fúria. A rua silenciosa, o apito do vigia, o Caravelo, mais lento que o andador da minha vó, prestes a cair sobre nós, ali, sob cobertores cheirando a amaciante e ferro de passar. Depois de rezar, em vez de dizer amém, eu dizia: “não amanheça, não amanheça”. Os dois lados escuros da casa – as lâmpadas sempre queimavam - que iam dar no quintal. Lá, a goiabeira onde chorei e sonhei e vi, dias sem fim, a menina sair do banho. O tilintar de pratos e copos dos vizinhos e a sensação de que dentro da noite eu estava protegido do mundo. Sobre a geladeira, o sarcástico pinguim que sabia mais de nós do que nós mesmos. Ali, em cima da velha cônsul asmática, ria a rodo dos nossos desencontros. A minha irmã sonâmbul...

a alça fria do peso da sua ausência

Quando meu irmão faleceu, não fui ao enterro. Adianto que não estou a justificar nada – e isso se justifica? -, mas é que meu pai havia morrido alguns meses antes e não vi mesmo força nenhuma para outra empreitada do nível ou pior. O que dói na morte não é somente a perda. Sabemos que, mais cedo ou mais tarde, morremos. É um acordo tácito, ou seja, antes de nascermos, não nos é apresentado um contrato no qual está escrito: “você vai nascer, passar um tempo – sabemos lá quanto – depois você morre. Assine aqui embaixo”. No curso da nossa vida, acabamos aceitando a ideia – aceitamos? – como um enfermo, uma hora, aceita a sua moléstia. O que machuca mesmo, e é aqui que a chapa esquenta, é a forma como a indesejada das gentes, como Bandeira gostava de denominá-la, tira-nos pessoas queridas. Melhor dizer nos arranca, sim? Porque é isso que ela faz. Lembro-me do meu pai, homem de voz de martelo de Thor com a qual até a casa se assustava. Mas era doce que nem os picolés de castanha da minha ...