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podia não ser muito simples, mas não era tão complicado

Antigamente, precisávamos de muito pouco para encarar uma sexta-feira à noite. Não precisávamos escolher uma entre tantas roupas – muitas de marca – e acessórios vários. Também não havia tantos lugares como hoje, e assim, que bom, não era preciso dar voltas e mais voltas no quarteirão até encontrar uma vaga onde enfiar de vez o carro e a impaciência. Numa dessas, acabei pegando a rodovia Anchieta, rumo à praia, e acho que até hoje não voltei.
No débito ou no crédito? Não, não havia isso. Nem as imensas filas para garantir uma mesa para dois próxima do banheiro ou num lugarzinho um pouco melhor, longe, pelo menos, do forte cheiro de desinfetante e xixi, mas que precisamos, vez em quando, abaixar a cabeça para que o garçom, pra lá e pra cá, consiga passar com as bandejas sempre carregadas e por isso, perigosas.
Sim, precisávamos de muito pouco para atravessar uma sexta-feira à noite. Não havia nenhuma necessidade de ficarmos indecisos com este ou com aquele prato – alguns de nomes impronunciáveis – e talheres diversos. Também, não nos inquietava a possibilidade de esquecer o celular, já que, hoje em dia, tudo é feito por ele, mas não ainda tirar dele o oxigênio que nos mantêm vivos, apesar de que, acredito piamente, que os caras do Vale do Silício já estão, com certeza, maquinando essa possibilidade. E não é isso mesmo que eles querem?
Sair às sextas à noite, penso, não era mesmo complicado. As roupas é que nos escolhiam. Era sempre a melhorzinha. De marca? Da dona Margarida que costurava para pelo menos metade do bairro e crescendo. Como disse, não havia muitos lugares para se ir. Mas havia sempre o lugar da moda que durava até aparecer outro lugar da moda. Quando um pegava, todo o bairro ia:
_tu viu? Tem um lugar novo no pedaço. Dizem que é muito bom
A coisa era de boca em boca.
Nesse lugar, encontrávamos todo mundo, inclusive a dona Margarida, a nossa costureira, com suas bochechas vermelhas de vinho e trajando um vestido de baile cheirando à naftalina.
Iam uns seis num carro, na frente, e mais uns seis, num carro logo atrás. Uma família inteira e feliz numa Rural e até num velho fusca. Estacionávamos nossos velhos carros onde desse na telha. Lugar para isso é que não faltava. Eles tinham alarme? Só se fosse o alarme do apito do vigia noturno em sua motoca, também velha.
Pagávamos sempre em dinheiro – ou em espécie, como gostava de dizer o meu pai - e nunca dividíamos a conta. Isso é coisa dos anos 2000. Uma noite, um pagava tudo, e de uma só vez, e nas outras noites haveria sempre um ou outro, e de bom grado, para sanar a despesa e assim, íamos.
Não havia ainda a promissória. Era só a palavra, nada mais que a palavra. E isso valia muito. Havia sempre uma mesa a nossa espera. E se o local da moda estivesse lotado, logo o dono apareceria com uma mesa do seu escritório na cabeça e tudo estava resolvido. Alguns dos lugares das mesas eram incríveis: sob um ipê roxo ou amarelo, de frente pro mar, numa rua charmosa, ou no centro do mundo. Que seja.
Havia sim, alguns pratos sofisticados, mas nada que nos desse um nó na língua. O prato da casa era o mais solicitado. Não porque era o mais chique, mas porque continha tudo aquilo que todos gostavam num só prato: feijão, arroz, carne, ovo, batata, farofa... para comê-lo não havia nenhuma confusão: garfo na mão direita, faca na esquerda, ou ao contrário e tudo certo. Mas alguns preferiam uma colher e também tudo certo. A comida ia de qualquer forma para o lugar certo.
Se um de nós esquecesse a carteira, sem problemas. Logo aparecia um ou dois amigos para pagar a conta, nos dar carona e até apoio moral. Não nos inquietava a possibilidade de esquecer os celulares, pelo simples fato de que eles ainda não existiam. Afinal, os pais, avós de toda essa gente do Vale do Silício nem sonhavam um dia se conhecer. Tudo isso era apenas um sussurro na distante floresta. Bom, a única coisa da qual não abríamos mão, e que doeria muito se esquecêssemos, era a confiança uns nos outros. Confiança que o povo, ali do Sul da Baía de São Francisco num tá mesmo nem aí. E tenho dito.

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