Pular para o conteúdo principal

só pra lembrar de ti

Vai, sai desse silêncio. Logo o senhor que era tão falador. Que brigava com o âncora do jornal como se ele fosse o responsável pelo aumento dos preços das coisas, como se tivesse culpa pelo mar de corrupção no qual o país estava mergulhado. Vai, sai dessa inércia. Logo o senhor que se mexia tanto. Que parecia ter vários braços e pernas feito um Shiva do subúrbio a espernear e a dar braçadas com os sonhos não realizados.
Sair assim, de repente, que coisa! pela porta dos fundos, como faz um devedor com os credores. Vai, me bate, me deixa ver de novo teus olhos irados a buscar os chinelos no intuito de me punir por mais uma das minhas travessuras. E eu que fugia para a rua e esperava a noite cair como caem as folhas. Isso até as coisas amainarem e o senhor se esquecer da sova. Então, de mansinho eu entrava em casa feito um ratinho com um olho no queijo e o outro no gato.
Eu já não sou aquele desajeitado que sempre deixava cair o copo das mãos, não roubo mais as moedas dos teus bolsos, da tua carteira, não bato mais na minha irmã mais nova, até porque, como poderia, se ela está crescida, casada e com filhos? Eu não apanho na rua nem esqueço o troco nos balcões das mercearias, também não deixo de fazer o dever de casa – até porque já não há mais a velha casa nem a escola - nem preciso encher potes e quartinhas. Sim, mas há de existir algo que eu possa fazer que dê motivos para uma boa sova. Queria agora esta sova, qualquer coisa que pudesse te fazer falar, correr, sair daí, do meio da sala, como a dormir o sono que nunca pôde. Pensa que não via o senhor andando pela casa a lidar com os demoniozinhos que ligeiros subiam em tuas pernas, teus braços, ombros e lhe assanhavam os cabelos? Sim, os demônios, os pequenos, mas que não morrem nem depois que morremos. Falo das contas penduradas feito bandeirolas a balançarem sob o impulso dos ventos dos teus desesperos.
O que faz aí, me diga, tão quieto enquanto o âncora do jornal, triste e tão sozinho lá na sala sem ti, sem o teu dedo em riste? Posso ver o sorriso amarelo dele, a voz embargada dele como também a se perguntar o que o senhor faz ai. Sim, o que faz aí, tão calado, me diga, tão quieto, me diga, enquanto estou aqui a aprontar? Sim, a aprontar. E não somos crianças grandes? Acho que não cresci, minhas roupas é que aumentaram.
E agora, essas pessoas a tua volta. Logo o senhor que não gostava que te tocassem, que te olhassem muito. O senhor que baixava os olhos nas fotos. E agora esses passos mansos pela sala, esses sussurros, esse cheiro de rosa, de vela, de sei lá, além dessa tarde que não cai nunca. Ei, e para onde estão agora te levando? E por acaso não existem mais contas a pagar? E por acaso amanhã não é segunda-feira e o patrão não vai te chamar num canto para te cobrar além do que o senhor já faz? E esqueceu que na quarta precisa conferir o bilhete da loteria? Ei, e para onde estão te levando agora nesse movimento manso como quem rouba? A chave do teu carro está no cabide, a tua carteira está sobre a mesa a vomitar papéis velhos que o senhor teimava em guardar – para quê? -, a tua roupa de há pouco como quem chora sobre o sofá de napa. Aquele mesmo sofá que de tanto o senhor brigar com o âncora do jornal, rasgou-se todo e que agora me pergunto como o senhor, deus! não caiu ali dentro de vez? E agora a casa vazia, a tarde vazia. Todos como que em procissão. Mas diferentemente, da procissão, não levam um santo, levam a ti.
E eu buscando um lugar como um astrofísico procurando o centro do universo. Sinto agora ganas de te roubar moedas, de quebrar a lâmpada do vizinho, de bater na porta da dona do frigorífico e sair correndo, de roubar as buganvílias da velhota carrancuda que me esperava detrás de uma Vênus de Milo numa tristeza profunda sem braços. Tudo isso pra que o senhor saia daí de vez e me dê uma surra, uma pisa, uma sova, e eu possa de novo ver teus olhos irados em busca dos teus chinelos na intenção de me castigar.
Nesse meu lugar sem lugar, nesse meu chão sem chão vou tramando, aprontando, buscando um jeito de te aborrecer. E o senhor não perde por esperar. Se até o final desse trajeto não se levantar daí e me disser por que saiu da vida de forma tão brusca, sem aviso, não apenas te roubarei moedas nem me reduzirei a quebrar o espelhinho do banheiro que toda manhã o senhor fazia a barba em assobios desafinados. Arranjarei algo maior, pode apostar. Enquanto Isso, ficarei aqui, ao teu lado sem ti, lendo, vez em quando, teu nome na lápide para acreditar que o senhor se foi de vez. Pai, tanto tempo isso tudo, e ainda não acredito, sabe? Às vezes, brigo com o âncora do jornal, e com os olhos irados, corro atrás dos meus chinelos só pra lembrar de ti.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

obrigado, António Lobo Antunes!

Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...

a velha casa II

O jardim onde, nas brincadeiras, eu me escondia detrás das plantas espinhentas. Nas minhas primeiras incursões etílicas da juventude, eu tinha de pular o muro para que o portão, com seu incurável canto em falsete, não me denunciasse e meu pai se levantasse em seu arrastado de sono e fúria. A rua silenciosa, o apito do vigia, o Caravelo, mais lento que o andador da minha vó, prestes a cair sobre nós, ali, sob cobertores cheirando a amaciante e ferro de passar. Depois de rezar, em vez de dizer amém, eu dizia: “não amanheça, não amanheça”. Os dois lados escuros da casa – as lâmpadas sempre queimavam - que iam dar no quintal. Lá, a goiabeira onde chorei e sonhei e vi, dias sem fim, a menina sair do banho. O tilintar de pratos e copos dos vizinhos e a sensação de que dentro da noite eu estava protegido do mundo. Sobre a geladeira, o sarcástico pinguim que sabia mais de nós do que nós mesmos. Ali, em cima da velha cônsul asmática, ria a rodo dos nossos desencontros. A minha irmã sonâmbul...

a alça fria do peso da sua ausência

Quando meu irmão faleceu, não fui ao enterro. Adianto que não estou a justificar nada – e isso se justifica? -, mas é que meu pai havia morrido alguns meses antes e não vi mesmo força nenhuma para outra empreitada do nível ou pior. O que dói na morte não é somente a perda. Sabemos que, mais cedo ou mais tarde, morremos. É um acordo tácito, ou seja, antes de nascermos, não nos é apresentado um contrato no qual está escrito: “você vai nascer, passar um tempo – sabemos lá quanto – depois você morre. Assine aqui embaixo”. No curso da nossa vida, acabamos aceitando a ideia – aceitamos? – como um enfermo, uma hora, aceita a sua moléstia. O que machuca mesmo, e é aqui que a chapa esquenta, é a forma como a indesejada das gentes, como Bandeira gostava de denominá-la, tira-nos pessoas queridas. Melhor dizer nos arranca, sim? Porque é isso que ela faz. Lembro-me do meu pai, homem de voz de martelo de Thor com a qual até a casa se assustava. Mas era doce que nem os picolés de castanha da minha ...