Gosto muito do livro no formato físico. Primeiro, descobri o livro pegando nele, só depois, lendo-o. Hoje, ainda fico num frisson danado quando acho um livro que há muito procurava. O tempo se desloca, o dia fica febril. Ando na livraria como se estivesse num labirinto. Sento-me, folheio-o, viro-o como a testar a saúde, a resistência dele. Levanto-me e ando. Sempre com o livro debaixo do braço. Não o quero comprar ainda pois quero mil vezes o prazer de saber que ainda vou comprá-lo. Esbarro nas pessoas, perco a noção da física, desafio suas equações precisas. Mudo o livro para o outro braço, aperto-o para me certificar de que não fugiu e ainda me quer. Tenho receio das pessoas, pois acho que estão interessadas no meu livro, então, seguro-o com as duas mãos. Certifico-me de que é ele mesmo ali comigo. Leio o título e o autor, respiro, leio de novo, respiro. É assim.
Estou sempre a comprar livros. Não para lê-los, exatamente. Também, mas acima de tudo, para tê-los. Há livros na minha estante que nunca os vou ler, mas gosto de tê-los ali. Ponto. É como um contrapeso do mundo. Equilibra o vazio. Enfim, me dirijo ao caixa e pago. Agora com os livros na minha bolsa de couro à la Cacaso - são tantos - vou pela rua como quem flutua. Em dias assim, custo a dormir e quando durmo, gosto de acordar de madrugada e saber que estão ali, todos, sobre a escrivaninha. Então, volto a dormir, a tentar. Pela manhã é como se fosse Natal e eu, meu próprio papai Noel. Alguns eu ainda nem abri. É como despir uma mulher com a qual não vamos dormir. Apenas conversar, conversar, como fazem as pessoas quando estão felizes e se repetem em sua felicidade.
As pessoas sabem que gosto do livro, não só como leitor. Sabem que o objeto-livro é uma coisa que mexe comigo. Sei lá de onde isso veio. talvez do meu irmão mais velho. Guardava alguns em sua velha mala. Eram como objetos sagrados. Eu podia perder a cabeça se mexesse ali. E eu mexia. Enfim. As pessoas sabem que tenho essa fissura pelos livros, já disse, e ai ficam me perguntando se eu acho que o livro vai acabar. E pra encerrar a conversa costumo dizer que o mundo vai acabar, e os livros com ele, evidentemente, mas até lá, é o que penso, os livros ficarão por aí. Serão menos, talvez, mas, melhores. Permanecerão como as árvores que as pessoas não se cansam de cortá-las. E reforço que isso não me preocupa, pois terei os meus livros e minhas traças e meus mofos. O que me preocupa, digo, é que alguém venha me dizer que o conhecimento é que vai acabar. Aí, sim. Quando as pessoas perderem o tesão pelo saber, a coisa perdeu de vez o prumo, o mundo acabou.
Tenho um leitor de livro digital, e gosto, confesso. Mas a verdade é que não tenho os livros que estão ali. É o que sinto. Quando estou lendo-os sinto falta do toque, do folhear, do cheirar, de sentir a pele das páginas como sentimos o toque da unha na pele de quem amamos. O resvalar das mãos, o hálito de maçã. Os livros têm hálito de maçã. Menos os dos filósofos. Mas o conteúdo tá ali, como uma pintura num quadro. Um dia, adormeci, e o leitor digital caiu e espatifou-se. Diferentemente, do livro físico que já caiu várias vezes e permanece inteiro como um soldado de muitas guerras.
Nem sei por que dei de falar de livros. Acho que queria falar de outra coisa, mas já não sei. É isso o que os livros fazem com as pessoas; nos possuem. Ah, o leitor de livro digital... Sim... Dizia que gosto... E gosto mesmo. Há inúmeras utilidades. Quem os tem sabe. Mas há, deus, uma qualidade que, pelo menos para mim, que já me separei inúmeras vezes, é decisiva: não pesa nada. Já me separei tantas vezes e o peso dos meus livros, que sei lá já quantos são, pesa mais que um coração machucado pelo fim de mais uma história que um dia foi muito bonita. Isso quando eu ainda não era o desconhecido que acabei me tornando para elas. Acontece. O amor tem que ser louco, sempre. Daqueles que quando acaba reverbera muito tempo depois da nossa morte. Mas as separações existem, assim como os avisos numa estrada até o fim da viagem. Se acontecer comigo outra vez, sei que no leitor de livros digitais posso carregar milhares de livros, muitos, sei lá quantos. Então, é só colocá-lo debaixo do braço, como quem coloca uma Alexandria, e ir chorar noutro terreiro. E um dia, é certo, haverá alguém com vontade de conhecer o desconhecido e tudo recomeça. É sempre assim. Azar o nosso que acreditamos. Se não, o que mais fazemos da vida?
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