Pular para o conteúdo principal

sobre meninos, pipocas e decotes

De repente, me vi neófito. Ora, não me recordo de ter me oferecido para a função à época. Coisa da minha mãe, só pode. É que eu já sabia andar bem sobre as pernas, me achava muito inteligente, e não parava quieto em lugar algum. Então, deve ter sido ela sim, que falou com o padre Juracy para me arranjar algo do que me ocupar.
Neófito? Sim. Na igreja católica, é um tipo de preparação para coroinha. Sabe aquele menino que ajuda o padre na missa? pois é. Um neófito faz tudo o que um coroinha faz e mais um pouco, mas não é um coroinha, entende? Se persistir, e principalmente, resistir a todas as tentações do inferno, com certeza será um coroinha, e dos bons.
No começo, eu gostava. Dentro da minha roupa de mini padre, ajoelhava-me na hora certa e tocava o sininho. Podia, com rabo de olho, ver as meninas, nos bancos da frente, olhando-me com risinhos abafados. Dali eu também podia notar os sapatos do padre Juracy, juntinhos, feito irmãos gêmeos obedientes. Via tanta coisa. Ainda por cima, era bom tomar o vinho em goles de náufragos, comer as hóstias novinhas muito antes de irem para a âmbula, colocar o ouvido no confessionário e saber que a mulher do armazém da esquina tinha...
Com o tempo foi ficando chato. É a busca contínua. Não porque as coisas diminuem, perdem o valor, mas porque crescemos, evoluimos...dizia o padre Juracy. Mas o fato é que eu ia descolando-me de mim mesmo feito pele morta. Trazia o vinho quando era pra trazer a hóstia, ajoelhava-me para tocar o sino quando, na verdade, tinha de recolher alguma coisa que precisava guardar. E o que é pior: com o queixo nas mãos sobre o altar, cochilava como se estivesse subindo ao céus. Acordava com o padre Juracy me dando leves chutes, de ladinho, como o personagem de Chaplin faz com o menino, seu parceiro nos trambiques, em seu filme O Garoto.
O que eu ainda gostava era da homilia. Não pelo sermão em si, mas o que poderia acontecer no curso do falatório.
_irmãos, irmãs... no novo testamento, capítulo tal, versículo tal. Não, melhor, Carta aos Hebreus... Hebreus 9:11-14...
Era o padre Juracy falando enquanto todos já iam abrindo o livro sagrado. Ouvia-se um desesperado passar de páginas feito uma revoada de pássaros. Se padre Juracy não fosse padre, certamente, seria um excelente contador de histórias.
_ Jesus é sacerdote e o sacrifício que purifica...
O tema do sermão era sempre sobre algo que acontecera recente na nossa comunidade. Ele dizia que era preciso contextualizar. Ora, sabia lá eu o que era contextualizar?
_... a consciência humana com seu próprio sangue...
Todos na igreja absortos nas palavras do padre. Ninguém falava, tossia, respirava. Os vira-latas cessavam de latir e sentavam-se, quietos, sobre o rabo, a mirar o padre, os bebês paravam de chorar, e mascando suas chupetas, com olhos grandes e úmidos, também a mirar o padre.
_... ao derramar o seu próprio sangue, cumpriu-se o que era esperado da liturgia
Todos ainda mais atentos. Alguns até olhavam para o teto como se com receio de que aquelas pessoas enormes, de barba até o peito, cabelos longos, vestidas apenas com fraldas e chinelos de rabichos descessem dali cheios de ira celeste e os arrebatassem pelo pescoço sem pena.
_...a remissão dos pecados... sim, o sacrifício...
Eu sentia a coisa chegando, estava perto, podia quase tocá-la. Percebia o padre Juracy inquieto, olhando para o fundo da igreja e logo depois para o livro sagrado, e então, erguendo as mãos como um maestro a reger a sinfonia de si mesmo. Seguia com o sermão.
-Crist...Cris...Cri...Cordeiro....PIPOQUEIRO, EI, PIPOQUEIRO DO CÃO...
Os novos fiéis, aqueles que tinham acabado de chegar à nossa comunidade, talvez, estivessem se perguntando: “será que no tempo de Cristo já havia pipoqueiro?" Já os mais antigos apenas riam, pois conheciam muito bem aquela refrega.
_PIPOQUEIRO DOS INFERNO, JÁ...JÁ... FALEI QUE NÃO É PRA COLOCAR O CARRINHO BEM NO MEIO DA PORTA. TÁ IMPEDINDO A PASSAGEM DOS INFI... HUM, DOS FIÉS, INFELIZ.
A igreja, depois disso, ficava mais barulhenta que os vendilhões do templo, depois que Cristo chutou mesas e cadeiras. Padre Juracy, sem cerimônias, pedia silêncio e com voz firme...
-irmãos, irmãs...irm...
tentava retomar a paz do sermão, mas agora os vira-latas latiam, os bebês choravam, as mulheres jogavam os bebês chorões para os braços dos maridos chorões que logo os devolviam aos braços das mães...
Eu permanecia atento, pois por experiência, sabia que poderia ainda, na mesma missa, aparecerem duas pérolas num só discurso, como uma vez que, depois de brigar com o pipoqueiro, padre Juracy começou a pregar sobre a vaidade. Sabe-se lá porque entrou nesse tema. De repente, parou no meio do caminho para brigar com uma moça, na primeira fila, com, segundo ele, o decote descabido:
_que coisa... moça... na casa do Senhor.
A moça, coitada, fez o que pôde, mas é certo que ninguém conserta o mundo todo com apenas um gesto, né? Era divertido, sim, isso era. De triste bastava a vida.
Eu ainda fiquei um tempo, até que enjoei do vinho, das hóstias, que já não tinham mesmo gosto de nada, o pipoqueiro morreu, e as moças bonitas, por um tempinho, passaram a se sentar nos últimos bancos da igreja, e então, sem aviso, sumiram de vez. Ah, o padre Juracy faleceu pouco depois. Será que foi de saudade das meninas de decotes descabidos?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

obrigado, António Lobo Antunes!

Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...

a velha casa II

O jardim onde, nas brincadeiras, eu me escondia detrás das plantas espinhentas. Nas minhas primeiras incursões etílicas da juventude, eu tinha de pular o muro para que o portão, com seu incurável canto em falsete, não me denunciasse e meu pai se levantasse em seu arrastado de sono e fúria. A rua silenciosa, o apito do vigia, o Caravelo, mais lento que o andador da minha vó, prestes a cair sobre nós, ali, sob cobertores cheirando a amaciante e ferro de passar. Depois de rezar, em vez de dizer amém, eu dizia: “não amanheça, não amanheça”. Os dois lados escuros da casa – as lâmpadas sempre queimavam - que iam dar no quintal. Lá, a goiabeira onde chorei e sonhei e vi, dias sem fim, a menina sair do banho. O tilintar de pratos e copos dos vizinhos e a sensação de que dentro da noite eu estava protegido do mundo. Sobre a geladeira, o sarcástico pinguim que sabia mais de nós do que nós mesmos. Ali, em cima da velha cônsul asmática, ria a rodo dos nossos desencontros. A minha irmã sonâmbul...

a alça fria do peso da sua ausência

Quando meu irmão faleceu, não fui ao enterro. Adianto que não estou a justificar nada – e isso se justifica? -, mas é que meu pai havia morrido alguns meses antes e não vi mesmo força nenhuma para outra empreitada do nível ou pior. O que dói na morte não é somente a perda. Sabemos que, mais cedo ou mais tarde, morremos. É um acordo tácito, ou seja, antes de nascermos, não nos é apresentado um contrato no qual está escrito: “você vai nascer, passar um tempo – sabemos lá quanto – depois você morre. Assine aqui embaixo”. No curso da nossa vida, acabamos aceitando a ideia – aceitamos? – como um enfermo, uma hora, aceita a sua moléstia. O que machuca mesmo, e é aqui que a chapa esquenta, é a forma como a indesejada das gentes, como Bandeira gostava de denominá-la, tira-nos pessoas queridas. Melhor dizer nos arranca, sim? Porque é isso que ela faz. Lembro-me do meu pai, homem de voz de martelo de Thor com a qual até a casa se assustava. Mas era doce que nem os picolés de castanha da minha ...