Pular para o conteúdo principal

verdadeiras pérolas

Para que servem os relacionamentos conturbados, desencontrados, doídos? Aqueles que nos tiram o fôlego, a rotina, e até o amor-próprio? Vi um homem, toda uma noite, debruçado numa mesa de um restaurante porque sua companheira não veio fazer-lhe companhia no jantar. Outro que rasgou em picadinhos todas as fotos da noiva e depois, arrependido, tentou, aos prantos, juntá-los novamente. Vi uma mulher, uma vizinha, que entrou para o convento depois de saber que seu companheiro não a queria mais. Foi ser serva de Deus, como costumava dizer em seus gestos contidos de virtudes. Vi outra que, durante muitos anos namorando no portão, quando o relacionamento desandou e o namorado deixou de aparecer, ela sumiu do bairro logo depois e ninguém mais soube dela.
Homens e mulheres que tentaram a sorte, botaram cartas, visitaram cartomantes, fizeram despacho e até atentaram contra a própria vida. Serão para isso os relacionamentos impossíveis, falidos, quebrados? Aqueles que nos tiram a razão, o foco e até a paz? Ah, já vi tanta coisa. E por mais trágico que seja, eu ainda da janela da minha adolescência imberbe, via tudo isso com inveja, com muita inveja. Aquelas pessoas pareciam mesmo fincadas na vida até o osso.
Não posso mesmo dizer que eram insinceras as lágrimas daquele homem, sozinho, sentado num banco de uma estação logo depois que sua amante partiu de vez da sua vida. A solidão que alguém nos deixa, ao partir, não é um espaço de tamanho fixo. É elástico. Cresce a cada manhã até tornar-se um abismo. Isso leva dias, meses, anos. Alguns duram toda uma vida.
No poema In Memoriam A.H.H. do poeta Alfred Tennyson há um verso que diz: “melhor ter e perder do que nunca ter sentido”. As poucas linhas sugerem que a experiência da perda, apesar da dor imensa, enriquece a vida e traz aprendizado, sendo preferível a uma vida tacanha. Posso dizer isso, sim, da experiência dos meus desencontros. Já disse isso em algum texto. Devo estar me repetindo. Nunca penso nos relacionamentos que foram na mansidão de um barquinho de papel. Vêm-me à mente apenas os fronts das querelas, os zumbidos dos obuses mais ciumentos, os canhões das refregas apaixonadas e desencontradas por uma palavra escorregadia, e por fim, a rendição ao inimigo. Lembro-me não dos beijos mansos, beijos com batom e bom dia, mas sim, daqueles que ameaçam nos levar parte dos lábios e que provocam a desconjunção dos planetas mais íntimos em nós. Quando penso nesses relacionamentos, algo em mim se ergue feito um suricato diante do iminente perigo. Isso mesmo, perigo, mas, por outro lado, também, abrigo. Perigo e abrigo. Complicado.
Mas eu me questionava para que servem os relacionamentos complexos, alvoroçados, intensos? Aqueles que nos levam a paciência, o tino, e até a alma? É uma boa questão. E deve haver muitas respostas. Porém, da altura do romântico que penso que sou, estes relacionamentos existem, principalmente, para fomentar a criação de obras-primas sobre o tema. Músicas que independente do tempo, nos cortam com a precisão de um bisturi, ou chegam como um tapa para nos alertar de que estamos a sucumbir sob os ditames tediosos da vidinha que arrastamos sem nos dar conta. E como dói ouvir essas músicas, e como nos sentimos pulsar novamente. Sim, ter e perder é melhor que não ter tido, sentido. O motivo do desencontro não conta.
Quem, num término de um relacionamento, já não entrou, de madrugada, num supermercado 24 horas, vazio, e não ouviu uma dessas músicas como se tocasse em nome da dor recente que o infeliz traz bem no meio do peito? Ou no rádio do carro, numa estrada escura, rumo ao nada, quando estamos tentando fugir de nós mesmos, mas, na verdade, indo e indo mais e mais ao nosso encontro? Sabemos, por experiência, que não podemos nos apartar de nós mesmos, mas, é certo, podemos tentar, sim, é válido.
Quais são essas músicas? Ora, cada epopeia amorosa tem a sua própria trilha sonora. Cada um vai sofrer a sua maneira, num ritmo e diapasão próprios. Afinal, rio algum pode correr por outro rio, não é mesmo? Mas, se vale, para mim, são estas: "I Don't Want to Talk About It" com Rod Stewart – e apenas com ele - When a Man Loves a Woman, com Michael Bolton – e só com ele – , Stuck on You" or "Say You, Say Me, com Lionel Ritchie – e sim, apenas com ele – e muitas outras. Todas, certamente, frutos de experiências amorosas impossíveis, destroçadas, doídas, doidas e que, por isso mesmo, verdadeiras pérolas. Do contrário, pode apostar, nem existiriam.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

obrigado, António Lobo Antunes!

Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...

a velha casa II

O jardim onde, nas brincadeiras, eu me escondia detrás das plantas espinhentas. Nas minhas primeiras incursões etílicas da juventude, eu tinha de pular o muro para que o portão, com seu incurável canto em falsete, não me denunciasse e meu pai se levantasse em seu arrastado de sono e fúria. A rua silenciosa, o apito do vigia, o Caravelo, mais lento que o andador da minha vó, prestes a cair sobre nós, ali, sob cobertores cheirando a amaciante e ferro de passar. Depois de rezar, em vez de dizer amém, eu dizia: “não amanheça, não amanheça”. Os dois lados escuros da casa – as lâmpadas sempre queimavam - que iam dar no quintal. Lá, a goiabeira onde chorei e sonhei e vi, dias sem fim, a menina sair do banho. O tilintar de pratos e copos dos vizinhos e a sensação de que dentro da noite eu estava protegido do mundo. Sobre a geladeira, o sarcástico pinguim que sabia mais de nós do que nós mesmos. Ali, em cima da velha cônsul asmática, ria a rodo dos nossos desencontros. A minha irmã sonâmbul...

a alça fria do peso da sua ausência

Quando meu irmão faleceu, não fui ao enterro. Adianto que não estou a justificar nada – e isso se justifica? -, mas é que meu pai havia morrido alguns meses antes e não vi mesmo força nenhuma para outra empreitada do nível ou pior. O que dói na morte não é somente a perda. Sabemos que, mais cedo ou mais tarde, morremos. É um acordo tácito, ou seja, antes de nascermos, não nos é apresentado um contrato no qual está escrito: “você vai nascer, passar um tempo – sabemos lá quanto – depois você morre. Assine aqui embaixo”. No curso da nossa vida, acabamos aceitando a ideia – aceitamos? – como um enfermo, uma hora, aceita a sua moléstia. O que machuca mesmo, e é aqui que a chapa esquenta, é a forma como a indesejada das gentes, como Bandeira gostava de denominá-la, tira-nos pessoas queridas. Melhor dizer nos arranca, sim? Porque é isso que ela faz. Lembro-me do meu pai, homem de voz de martelo de Thor com a qual até a casa se assustava. Mas era doce que nem os picolés de castanha da minha ...