Mesmo que não queiramos, há lembranças que grudam em nós feito nódoas impossíveis. Num primeiro momento, rejeitamo-las, não necessariamente, porque são ruins. Na verdade, são boas. Mas porque, depois de um tempo, chegam-nos dolorosas. Sentimo-nos como se um outro, em algum lugar do tempo-espaço, vivenciasse algo que nos pertence. Nos pertence?
Ainda olho para cima a tentar identificar a nossa janela. Levo um tempinho, mas sempre a encontro, e com o sorrisinho escorregando do rosto, logo te imagino – sentada, uma perna sobre a outra, o vestido entre as coxas - a pintar as unhas dos pés. Fazia isso numa meditação de monge, em delicadezas de origamis. Estou bem ali, olhe bem, com as mãos suspensas sobre o teclado, numa mudez de palavras, paralisado com o teu rito de beleza. Como o poeta inglês, vejo anjos nascendo no pôr do sol.
Agora está abrindo o guarda-roupa e, no teu mordiscar de lábios, no teu roer de unhas típicos, busca algo ali dentro como quem procura o sentido da vida. Eu devia ter olhado com mais atenção. O sentido da vida, certamente, havia de estar ali: pendurado nos cabides, no avesso dos teus vestidos, no cheiro do amaciante, dos perfumes, no falsete melancólico do abrir e fechar de uma das portas.
Ei, lembra-te de nós a tentar acertar os passos quando, da locadora, voltávamos abraçados? Eu com dois Almodóvar sob o braço e você com um pote de sorvete como quem porta uma caixinha de música. E não era? Tudo era música. E dançávamos dentro de nós, no nosso baile mais oculto.
Ah, o velho elevador, na madrugada, como alguém que é tirado de um sono profundo e bom, subindo e descendo em resmungos de ferro e ferrugem. Quando passava pelo nosso andar, deus, precisávamos interromper a nossa orgia verbal e só retornávamos quando ele já ia longe a arrastar insones. Lembra-te?
Estou ainda aqui, a olhar a nossa janela. Todas tão iguais, sim, mas conheço a nossa como uma mãe conhece o filho, num berçário, em meio a tantos outros recém-nascidos. “É este, é esta”. Sem erro. Ouço agora o girar da tua chave na fechadura, o arrastar dos teus chinelões. Te vejo entrando e a me procurar pela casa num anseio de notícias boas. Entre novamente, vamos, entre. Quantos vezes mais poderei te ver entrando na nossa casa?
Estou na janela, fumo um palheiro, e com o corpo ainda trêmulo, te contemplo sobre a cama. Teu império nu e exausto fatiado pela luz da lua que entra pelas desgastadas venezianas. Como pode ser complexa e ao mesmo tempo tão simples a felicidade, não? Naquela noite, na janela, lembro-me de ter perguntado: “do que mais preciso?”. A felicidade não nasce de momentos felizes, ela os torna felizes. Lembro ainda de ter pensado nisso, como se hoje, aqui, agora, enquanto olho a nossa janela e penso em ti.
Essas lembranças dão de nos visitar e chegam sem aviso. São tão familiares e desconhecidas como algumas pessoas nos sonhos. Vem de longe, de um passado que é e não é nosso e trazem sempre flores, mas também alguns punhais, é certo. Seja o que for, isto ou aquilo, em meio a dor e a delícia, sempre que passo na nossa rua, não posso deixar de procurar a nossa janela. Levo um tempinho, mas sempre a encontro. E como não poderia? Lá está ela, veja. Se calhar, subo essas escadas, que tanto subi, e te encontro na sala, a me esperar para continuarmos uma conversa que o tempo, sei lá por que, resolveu interromper.
Comentários
Postar um comentário