Hoje não me apetece falar da infância, do meu pai, minha mãe, minha vida, nada. Confesso que até eu me canso dessas coisas. Gostaria de viver outras vidas. Vidas sobressalentes como os pneus extras nos automóveis.
Não quero falar de livros, autores, poetas malditos, poesia, nada. Isso também me cansa, apesar de que a literatura é ainda o que me mantém firme quando tudo mais parece sem sentido. Mas não quero mesmo falar de literatura. Há gente demais fazendo isso, e aleatoriamente. É mesmo como disse Giogio Agamben: “a opinião tomou de vez o lugar do pensamento crítico.
Às vezes me dá ganas de escrever sobre outras coisas, assim, como Rimbaud, tempos depois de abandonar a poesia, passou a escrever textos técnicos. Em Chipre, dizem, ele estava lendo O livro de bolso do carpinteiro, o Álbum das serralherias florestais e agrícolas, As construções no mar, entre outros do mesmo naipe.
Também não quero falar das companheiras. Das que permaneceram mesmo quando o chão se abriu, menos ainda daquelas que duraram o tempo das velas queimarem nos castiçais em tim-tins de punhais. Passo. Oh, o amor, essa ficção barata para ajudar a vender jantares, cartões comemorativos, noites em motéis, presentes, bebidas. Oh, o amor, essa forma tacanha de burlar a aspereza dos dedos ossudos da vida. Galho robusto, porém, oco.
Sim, sou pessimista. Com o tempo, o otimismo num homem – velho? - converte-se num traço desagradável. Meu avô dizia que, na juventude, agarramo-nos ao copo, na velhice, ao terço. Arrependimento de última hora é como enviar cartas para um morto. Se temos de ir, vamos com o que somos, sem tirar nem pôr. Esse era o meu avô. E ele se foi mesmo sem tirar nem pôr.
Mas, do que quero falar exatamente? Não sei. Talvez dos homens soturnos dentro dos bares soturnos. Todos ali em meio a cheiros diversos: xixi, tabaco, café, desinfetante, sabão, charque, peixe, lúpulo... Lembro-me muito de um deles: camisa no ombro, palito de dente estropiado no canto da boca triste e, na mão direita, um cigarro sempre acesso feito um sexto dedo.
Posso também falar das mulheres de movimentos espalhafatosos que vinham buscar esses homens soturnos. Ouço ainda algumas frases dessas mulheres. De braços cruzados, diante deles, diziam: “esqueceu o caminho de casa, foi?” ou “perdeu o relógio, é?” ou “se não tem o endereço de casa eu posso te dar, quer? “. E isso sempre com os olhos furiosos. Alguns daqueles homens até se encolhiam ao ouvir essas frases.
Lembro-me ainda das calçadas altas desses bares. Calçadas tão inacessíveis. Só percebi que havia mesmo crescido quando passei a subi-las sem a menor ajuda dos adultos. Apesar de que até hoje, diante delas, ainda espero um pouco, tomo um ar e subo num impulso de incertezas. Para descer todo demônio ajuda. Mais ou menos. Poderia falar dessas coisas, sabe? mas a caneta não vai. Permanece sobre a mesa numa imobilidade de Lázaro. E mesmo que eu diga, vamos, levanta-te e anda, nada.
Poderia falar ainda de outras tantas coisas, é certo, já que este ventinho acariciou a minha nuca e me levou para mundos diversos. Quem sabe, de uma casa que mais parecia um ciclope em seu terceiro sono, o cheiro do asfalto, o latido de algum vira-lata, o som de um violino desafinado ao longe, uma Kombi velha a se arrastar lamentosa sob o sol do meio-dia. Talvez eu queira escrever sobre isso. Mas ainda não me decidi. Estou feito um homem a olhar vitrines sem saber ao certo o que comprar.
Foi Picasso quem disse que quando a inspiração chegar, vai encontrá-lo trabalhando. Entendo bem o que disse. O problema é que agora nada anda, a mão não vai. E se a inspiração, por um acaso, exista, que eu também duvido, deve ter-se extraviado no caminho antes de poder sentar-se aqui, à mesa, comigo. Deixo então, a caneta ao seu bel-prazer, cruzo os braços, deslizo na cadeira e me dou por vencido. É preciso apertar o parafuso, sim, mas nunca o espanar. Há noites assim. Dias também.
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