Sempre que penso na minha infância me vejo como um arqueólogo a escavar um artefato. Vou cavando e tirando a poeira com a delicadeza de uma mulher a pintar os cílios. Mas a coisa, é certo, nunca se revela completamente. Qual o real tamanho desse artefato? Pergunto-me vezes sem conta.
É sempre dúbia a sensação que vislumbro dessa delicada escavação. Não é doce nem amarga, é algo entre. Porque sou tanto aquilo e nada daquilo mais sou. E o que este homem traz do menino na foto a correr no quintal da velha casa? Penso que nada. No entanto, volto a ele. Ou ele volta a mim? Não estou bem certo. Por um momento, chego a pensar que é ele quem me leva para si.
Na possibilidade de um encontro entre este homem e aquele menino, pergunto-me: o que diríamos um ao outro? Daríamos conta da imensa lacuna que, em silêncio, abriu-se entre nós? Será que trocaríamos olhares acolhedores ou de esguelha como, nos velhos filmes de faroeste, os nativos olham os forasteiros? E não é isso que nos tornamos quando adultos: um forasteiro de nós mesmos? Sinto-me assim, às vezes, quando dou de dar corda nesses relógios já sem ponteiros.
Pensar na infância é como sonhar desperto: nada chega inteiro, no entanto, chega. É como desenhar círculos na água: é e já foi, no entanto, permanece. Penso que não estamos lidando com a realidade em si, mas sim com o que dela estremece em nós. Não ouvimos o som que soa no momento do acorde, mas aquele que, já fatigado, viaja no vento. Não é com o corpo que lidamos, é com a sombra. Tudo é turvo como uma carta que nos chega quase ilegível porque, em seu curso, passou por várias mãos e leituras. Coisa assim.
Um amigo meu, psicólogo, disse-me uma vez: “as lembranças mais inopinadas são aquelas nas quais pensamos diariamente. Porém, não aceitamos que as pensamos. Não queremos saber que as sabemos. Até que elas, sabe-se lá por que”, diz meu amigo, “Se nos revelam. Isso talvez como o reflexo de um amadurecimento. Mais ou menos como um andarilho que passa a encarar estradas mais longas, difíceis, porque adquiriu botas mais resistentes”. Reforça ele.
A infância não tem fronteiras e tudo está sob sua jurisdição. É fato que se esconde nas bainhas das nossas roupas. Digo isso, porque, há momentos em que me encontro a procurar roupas, sapatos e brinquedos de quando eu era ainda um menino. Mas faço isso como se os tivesse perdido ontem: “sabe onde coloquei aqueles meus calções curtos?” ou “aquele meu trenzinho verde, sabe onde o guardei?”. Como não ouço resposta nenhuma do outro lado – e como poderia? - Coloco, então, as mãos nos bolsos e miro o chão feito um viajante não muito certo se está indo para o norte ou para o sul. Ora, se está indo para cá ou para lá, isso nada muda, porque para onde se vá, a nossa infância, é certo, estará à espera. E não importa que o tempo, com suas bocarras, devore tudo e todos. Mesmo assim, já velhinhos, armados de espátula e pincel, com a delicadeza e eficácia de uma mulher a passar batom nos lábios, continuaremos a cavar e a cavar este artefato que nunca se mostra completamente. Não se mostra – e só agora sei - porque a infância não é uma etapa da vida. É a própria vida. Imensa como ela só. Digo isso porque, até hoje, carrego a impressão de que a qualquer momento voltar-me-ão à boca todos os dentes de leite que atirei nos tantos telhados da minha velha infância de sempre.
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