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sem pressa e sem medo

Passamos dos cinquenta já faz um tempinho. Um tempinho? Ele pintou os cabelos algumas vezes; os meus vão ficando grisalhos e assim, ficarão: tenho medo de não me reconhecer no espelho. Ele, enfim, fez checkup e me falou sobre isso como se tivesse vencido a corrida de São Silvestre. Eu vou adiando: digo que gosto de subir ao ringue sem conhecer o meu adversário. Apesar de saber, desde já, que as armas desse inimigo são melhores que as minhas.

Sou padrinho dos filhos dele, ele, dos meus. Quando se separou, depois de um casamento de uma vida, estive ao seu lado feito sombra e corpo: ele comendo um pote inteiro de doce de leite, e eu tomando vinho barato, aberto com toalha no fundo da garrafa e pancadas temerosas na parede. Ele não bebe, por isso não tem saca-rolhas em casa. Mas deveria ter. Uma hora precisamos de um. É o que sempre digo.

Quando meu gatinho morreu e eu não quis mais me levantar da cama, ele veio e ficou jogado numa cadeira, dias e noites. Num dado momento, abriu as cortinas, arrancou meu cobertor e disse que eu já tinha passado do prazo de morrer, que já havia abusado do tempo e que já era hora de tocar a vida como todo mundo. Além do mais, ele precisa de um amigo de verdade. Ninguém morre por um grande amor, menos ainda por um pet. Pode morrer por um tempo, por um bom tempo, mas não por toda a vida. Reforçou.

Ele está engordando. Eu também devo estar. Ele toma remédios, eu também devo tomar. Quando nos visitamos, quase todos os dias, ficamos no quintal a olhar para o céu como a buscar a condolência das estrelas e a dissertar sobre o passado como se falássemos de um exílio. Quando ele chora, eu choro, e, de cabeça baixa, meio que para o lado, dizemos que é cisco no olho.

Nossas roupas estão parecidas. Usamos jeans e óculos de pai e professor. Ele tem dificuldade com degraus, eu, com embalagens hermeticamente fechadas. Ele me acorda de madrugada para falar da lua cheia e eu o desperto cedinho para falar de um nascer do sol raro que nem as antigas figurinhas dos nossos jogadores prediletos. Somos apenas crianças adultas. E assim, será, acredito. Resquícios da tradição que rui e rói. Fazer o quê?

Ele tem um lado cruel – e quem não tem? -: me liga o mais rápido possível para me informar que o meu time, o vovô, perdeu de novo para o seu tricolor. Também tenho meu lado cruel – e quem não tem? -: ligo para ele para informar que, felizmente, apesar das vitórias do seu tricolor sobre o meu vovô, o seu timeco não vai levar o campeonato. Depois disso, marcamos uma cervejada para comemorar as nossas derrotas de sempre. E essas são cheias de artilheiros e gols de placa.

Nossa barriguinha vai ficando bem saliente, mas tudo bem, pois vamos nos apegando a ela. Além disso, a usamos como um novo suporte do corpo: cruzamos os braços sobre ela e assim, tudo se encaixa. Ele coleciona cartões de telefone só pra achar que os orelhões ainda existem. Eu ainda compro vinil só para ouvir o chiadinho da agulha no disco.

Vamos seguindo com nosso andar pesado e quadrado; o tempo nos usa como massinhas de modelar. Um dia, sim, quisemos mudar o mundo, mas não exatamente, para que o mundo mudasse, entende? Éramos jovens, e jovens têm isso de querer mudar as coisas mesmo sem saber para que exatamente. Mudar o mundo não é como mudar os móveis de lugar, trocar o guarda-roupa, pintar o banco do jardim. Se eu tivesse o poder e a disposição de mudá-lo - aliás, disposição é algo que também vai minguando como minguam os cabelos - seria uma mudança ao contrário. No tempo em que, num domingo azul, colocávamos nossos bermudões - esses amassados que dormem ao lado da cama, bem ao alcance da mão - também nossos chinelões Havaianas, com um clipe em uma das tiras e, sob o braço, o jornal ainda quente da pancada que levara ao ser lançado pelo entregador logo pela manhã. E assim, largadões, íamos lê-lo no boteco mais próximo: sem pressa e sem medo.

 

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