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todos os caminhos levam à infância: lá, minha osga de estimação

Todos os caminhos levam à infância. Mesmo aqueles que, contra a nossa vontade, seguimos adiante. De alguma forma, estamos indo para ela. Ora, e não é lá que está tudo? O dedo deslizando doce na sobra do bolo na tigela, os macios e cheirosos lençóis que de tão passados a ferro em brasa, depois de abertos, pareciam tabuleiros de damas. Os vaga-lumes feito curtos-circuitos nos fusíveis da noite, o quadro da Santa Ceia com a minha osga de estimação a morar ali, atrás, na tranquilidade das molduras. À noite, quando ela saía à cata de insetos desavisados, eu podia notar um certo rebuliço naqueles homens cabeludos e barbudos a tramarem a paz e a confusão do mundo numa comilança eterna. Sempre me pergunto quem pagou a conta daquela Ceia.
A infância é uma grande caixa de lembranças. Dessas que grudam em nós feito nódoas de caju. Se o caju for roubado, ainda pior. Era o que minha vó dizia. No meu tempo de menino, ninguém tirava uma nódoa de caju como alguns dizem que fazem hoje em dia: num toque de mágica. É verdade? O que sei é que agora querem nos ensinar como devemos usar aquilo que inventamos. Bom, antigamente, convivíamos com uma mancha de caju numa roupa que muito estimávamos com a mesma resignação que lidávamos com a perda de um ente muito querido.
É certo: todos os passos seguem para a infância. País que vamos construindo enquanto o habitamos e que depois de pronto, prontinho, somos logo, contra a nossa vontade, convidados a deixá-lo para que outros o reconstruam enquanto o habitam. Quem decide isso? E pedi lá eu este bigode, esta barba? Pedi estas roupas que me cabem, mas que não me servem? Ainda prefiro os meus calções curtos, meus sapatinhos azuis de velcro. Pedi lá essas intrigas de adultos? Só entendo de refregas de índios e caubóis, de carrinhos que empacam em atoleiros invisíveis...
A infância é uma fruta suculenta que nos foi arrebatada logo após uma boa mordida. Onde estará a outra parte? No mínimo mofando em alguma velha gaveta de uma velha cômoda com pegadores em forma de rosa e cheios de cagalhões de moscas...
Todas as estradas levam à infância. Inclusive aquelas que ainda não foram construídas... se calhar, esbarro comigo pelo cominho: os dois correndo atrás da pipa cortada. Por mais que me empurrem nessa ladeira chamada presente que já é futuro, é provável que logo, logo, ouça, cada vez mais perto e mais nítido, o grito da minha vó; “ô mininu, deixa de estripulias e vem armoçá!”. E eu sempre a me questionar: “como ela consegue falar estripulias, mas não menino nem almoçar?”. Vai saber.
Garanto que quando eu chegar a pisar, descalço, o chão onde desenhava meus sonhos em garatujas impossiveis, vou, num pé e noutro, procurar a outra parte da fruta-infância; aquela suculenta que só consegui dar uma única mordida. E devagar, bem devagar, vou comê-la pelas beiradas, enquanto me divirto com minha osga de estimação a catar os insetos desavisados, e a irritar aqueles homens velhos no velho quadro da Santa Ceia. Vai ver que foi Judas quem pagou aquela conta.

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