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a boneca massacrada pelas mãos da vida que não sabe brincar

A primeira vez que a vi, estava ao balcão, tomando sua cervejinha de guerra. Tão franzina, tão miúda que, sentada no banco alto, suas pernas ficavam balançando como as de um enforcado. Sessenta? sessenta e cinco? Talvez mais. Uma senhorinha. Remetia-me a uma boneca massacrada pelas mãos da vida que não sabe brincar. Carregava, era o que parecia, uma tristeza profunda que me partia o coração. Até dava vontade de lhe oferecer uma mão para ajudar a suportar aquela tristeza, assim como auxiliamos alguém a carregar um pacote muito pesado até que chegue a casa.
Sempre que me via, num sorriso que mais parecia uma fisgada, perguntava-me: “e aí, professor, já começaram as aulas? Ou “e aí, professor, já terminaram as aulas?” Só isso. Depois, falava com um, com outro, ia ao banheiro, voltava, acomodava-se novamente, ao balcão e bicava a sua cerveja de guerra. Olhando-a assim, ela de costas, fazia-me também pensar numa criança velha, longe dos pais, perdida entre os adultos.
Todos os dias, quando eu subia a avenida para o trabalho, eu a via descer em seu passo de boneca à corda. Os olhos fixos em algo invisível à frente. Ia, com certeza, para o bar, eu pensava. Perguntava-me se havia outras formas de lidar com aquela tristeza toda, dentro dela, a se remexer no pântano. Naquele caminhar, parecia mesmo alguém com uma dor dilacerante em busca de um remédio de alívio imediato.
Quando a notava ali, sozinha, sentada no banco alto, a remexer os pés pequeninos, perguntava-lhe como andava a saúde. Gente de bar não gosta de perguntas desse tipo, fato, mas ela sempre me respondia, gentilmente: “ah, professor, tá indo. A vida é muito difícil, né?”. Pairava, então, um silêncio, e ela logo me devolvia um: “e aí, professor, já terminaram as aulas?”. Eu respondia-lhe, depois, silêncio novamente, e nisso ficava. No fim, não sabíamos o que ela queria mesmo dizer com o “Tá indo”. Mas as pessoas comentavam. Tivera um avc, ou dois, a pressão andava alta, altíssima, e o coração seguia fraco, cada dia mais.
A última vez que a vi, estava absorta em si mesma, longe demais do mundo para notar algo ou alguém a sua volta. Andava ainda com uma certa desenvoltura, mas alguma peça nela parecia ter-se danificado. Os olhos, era o que parecia, olhavam para dentro, como um projetor de cinema que é virado não para a tela, mas sim, para a pessoa que o manipula. Passei por ela e quis lhe deixar um bom dia, mas não o fiz. Do jeito que ela ia, tive receio de que acabasse tropeçando. E essas senhorinhas, depois de uma idade, estão proibidas de cair. Se a saúde estiver debilitada, então.
Um dia – e esse dia chega para todos – encontraram-na em casa, já sem vida. Estava ali, sozinha, ainda mais sozinha. Longe dos autoramas, dos velocípedes, dos fortes-apaches, dos pega-varetas, e de sua amiga mais próxima: a boneca amiguinha. Dizem que o seu mecanismo de choro, preso às costas, estava pifado. Quando as bonecas morrem, geralmente, uma pálpebra cai e a outra permanece normal, e quando a colocamos em pé, a coisa se inverte: a que estava aberta fecha e a que estava fechada abre. Mas no caso da boneca massacrada pelas mãos da vida que não sabe brincar, as duas pálpebras estavam decaídas. Não havia mais ali, nenhuma ludicidade, fantasia, mágica, nada. Tudo parecia ter cessado naquele velho brinquedo, agora, largado de vez, pelas mãos da vida.
Não vimos notificação nenhuma de obituários em jornais, internet nem convites para o velório na Vila Formosa, Vila Alpina, Araçá, num cemitério qualquer, ou mesmo numa vala, que seja, mas nada. Até aí, tudo bem. Ora, e por acaso, bonecas têm velório? Perguntei-me. O que penso é que ela deve estar em alguma oficina de brinquedos, encostada à parede, ansiosa para que o senhorzinho ali, que conserta aquelas coisinhas, dê logo um jeito nas pálpebras dela e conserte o seu mecanismo de corda, que é o que lhe põe em movimento, para que ela possa, novamente, sentar-se ao balcão - as perninhas balançando que nem as de um enforcado - e tomar a sua cervejinha de guerra. E sempre a me perguntar: “e aí, professor, já começaram as aulas?”. “E aí, professor, já terminaram as aulas?”.

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